segunda-feira, 25 de julho de 2011

MOVIMENTO 15M: MANIFESTAÇÃO ONTEM TEVE 40 MIL PESSOAS


 



 O chamado movimento 15M na Espanha
(assim denominado porque a primeira mobilização ocorreu na manifestação de 15 de Maio convocada pela plataforma "Democracia Real, já!"), como relata o repórter Nuno Ribeiro que lá esteve -  cumpriu ontem na capital espanhola as expectativas geradas. Segundo a polícia, foram 40 mil os que se concentraram na Praça de Neptuno, um número que os organizadores elevam para pelo menos 50 mil pessoas, mais do dobro dos reunidos em meados de maio, na primeira das manifestações. 

(Domingo aqui no Folha Verde News fizemos um resumo do significado deste 15M que começa na Espanha e pode se espalhar por vários lugares, como aconteceu com o Movimento da Juventude em Paris, 1968, que ajudou muito a transformar a realidade de então: isso talvez possa acontecer agora, diminuindo principalmente os índices de violência que crescem cada vez mais em todos os países. Você pode reler embaixo este post).


Ontem em Madrid,  cidadãos e cidadãs gritaram palavras de ordem contra as implicações sociais e políticas do "Pacto do Euro", num protesto pacífico e em festa.
 "Vamos lá a isto." Com voz determinada e um leque na mão, uma mulher de meia-idade junta-se a uma das seis colunas que, oriundas de vários bairros de Madrid e de municípios vizinhos, rumava à concentração de Neptuno. Pouco passa das 10 horas da manhã, a coluna vinha da zona norte da capital, com origem na "Plaza de Castilla", e já se adivinha a companhia de um parceiro incómodo: o calor. Ontem, foi o dia mais quente do ano, os termómetros ultrapassarem os 30 graus. Apesar da canícula, a senhora entra no desfile. Outros se vão juntando à passagem, num percurso rigorosamente vigiado pela polícia. Cerca de mil agentes participaram no esquema de segurança.
 "Já sabem, se houver violência, sentem-se no chão e levantem as mãos". Miguel, de 19 anos, de colete amarelo pistáchio, integra o serviço de ordem e não se cansa de repetir a orientação. Consciente de que os incidentes de Barcelona - a erupção de atos violentos na quarta-feira no cerco ao Parlamento da Catalunha - prejudica a imagem e a matriz do 15M, ontem o movimento apostou na normalidade da concentração. "Não podemos permitir que uns poucos nos estraguem a festa", explica o jovem.  

"Caminhemos juntos contra a crise e o capital" é o lema da concentração de Madrid. Uma das muitas dezenas previstas para várias cidades espanholas, e a mais matinal. "Vamos parar este pacto", lê-se numa faixa, referindo-se às políticas adoptadas pelo "Pacto do Euro". À medida que a coluna se aproxima do local da concentração aumenta o entusiasmo. As notícias da rádio sobre a marcha das outras colunas são saudadas. Há sorrisos quando é divulgado que à passagem da coluna do bairro popular de Vallecas se abriam janelas e idosos os aplaudiam. "Já era tempo que a juventude acordasse", diz com satisfação Maria Jiménez. "Sou enfermeira, trabalho no centro de saúde de Lavapiés, mas venho nesta coluna com uma amiga que mora no bairro de Pilar", revela Maria. O bairro de Pilar, uma concentração de edifícios de três andares, habitação social dos anos 60, onde então se marcava o subúrbio norte da cidade.  
Habitantes dos bairros de Madrid estão na rua. "Sou técnico informático, vivo em Chámberri com 'los viejos', sou precário, nem 'milieurista' sou", comenta Francisco, de 28 anos. "Quanto ganho?... já sabes, menos que mil euros", afirma ajustando as folhas de tabaco à mortalha. "Ninguém nos defende, nem os sindicatos nem as comissões de trabalhadores, hoje pelo menos posso gritar", diz entre risos. "O povo levantou-se, para dizer aos políticos e aos banqueiros que não nos representam, a concentração está sendo um êxito total, um protesto pacífico e cabeça", comenta Aída Sanchéz, porta-voz do 15M. A seu lado está uma família inteira, com carro de bebé incluído. "Pelo menos protestamos", desaba Ângel. "Não podemos continuar assim", corrobora a mulher Raquel. Casal de trinta anos, estudos secundários e no desemprego. "A loja onde trabalhava fechou", recorda ela. "Já pensei em emigrar para o Brasil ou outro lugar, mas é difícil, foge da rotina", diz ele antecipando a tristeza. Ouvem-se bombos. Som compassado. Num rufar de festa e protesto.  
Observadores afirmam que será mais fácil conseguirem mudar o sistema político do que o modelo econômico
 Um mês depois do seu início, o 15M, a contestação social espanhola nascida da manifestação de 15 de Maio, vive momentos decisivos. Passado o tempo dos acampamentos, que esgotaram as suas forças, os protagonistas continuam na rua. Junto às sedes do poder e em manifestações. Os seus protestos foram manchados por episódios violentos que traíram a matriz pacífica das suas acções. Os "indignados" estão numa encruzilhada. A luta continua, o objetivo mudar para melhor a realidade do país e da vida.
 "Se os partidos incorporarem algumas das suas propostas, o 15M teria o seu fim natural", antevê Belén Barreiro. Antes, há que ultrapassar a carga negativa da violência, a tentação do diktat da rua e do anátema à política. "Se os dirigentes do movimento encontrarem interlocutores e não forem criminalizados há uma saída", defende Caries Feixa. "Falta transformar a vontade de mudança em negociação", sublinha o antropólogo. Feixa destaca ainda "o ritual da iniciação coletiva", que levou muitos jovens a participarem pela primeira vez num debate aberto sobre política, economia e história. Desgarrado, sem dúvida. Confuso, não poucas vezes. Mas com o qual iniciaram o seu percurso de cidadãos. "Alguma vez viveu uma coisa como esta?", perguntou ao jornalista a porta-voz Blanca González, de 22 anos, estudante de Jornalismo. "Sim, uma revolução", foi a resposta. Blanca ficou sem palavras. "Talvez tenhamos dado demasiada importância a este movimento que, de algum modo, espelhava aquilo que sentíamos, concedemos-lhe um atractivo estético e simbólico", medita Vallespin. "O que estão a reclamar é a sua capacidade de serem cidadãos a tempo inteiro, mas pode haver frustração que não faz cidadania", alerta Caries Feixa. Próximos passos do movimento: marchas sobre a capital e greve geral na agenda. (Nuno Ribeiro)

 

2 comentários:

  1. Uma manifestação de cidadania como esta que está acontecendo dentro deste movimento, chamado M15, é exemplar e poderá acontecer em outros lugares do mundo, porque afinal em que lugar do mundo há liberdade, justiça, paz e a violência não predomina?...

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  2. Esta matéria de Nuno Ribeiro, aproveditada em parte pelo nosso blog, foi originalmente publicada no site www.mynetpress.com
    Esta observação corrige a não citação de fonte na postagem. O que importa é divulgar estes acontecimentos, respeitando-se também o nome do repórter e do site, a quem demos crédito, aumentando assim o alcance da informação.

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