quarta-feira, 28 de agosto de 2013

RECORDISTA COMO CENSURADO EM TV E CINEMA CONTINUA INDO À LUTA PARA MUDAR O PAÍS E A VIDA



Aventura de um perseguido durante governo ditatorial no país luta agora com jovens para mudar e avançar o país e a vida, fazendo blog de ecologia, de cidadania e um documentário da atualidade

A Ditadura Militar entre 1964 e 1986 já se manifestava antes e continuou após a data oficial em que o país começou a ser redemocratizado: antes e depois destas datas, a população brasileira e a própria Nação foram prejudicadas por grandes interesses políticos, econômicos, multinacionais. Neste contexto, aqueles que desde então se opuseram a esta situação, foram perseguidos, presos, torturados, calados e até mortos, entre estes opositores ao governo ditatorial uns defendiam a liberdade ou a chamada democracia, outros uma revolução comunista ou socialista no Brasil, pela luta armada ou pacífica, nesta multidão de rebeldes havia desde velhos líderes de esquerda até jovens e adolescentes ainda despertando para a cidadania, todos em busca da justiça social e do interesse nacional. Cerca de 3 mil brasileiros e brasileiras foram mortos pelas forças de repressão (policiais, militares, CIA, apoio financeiro de empresas), alguns deles, desaparecidos, por volta de 50 e 100 mil pessoas foram presos ou detidos, entre estes, pelo menos uns 30 mil foram também vítimas de tortura e de alguma forma de perseguição política. Estes números ainda estão sendo levantados por pesquisadores da História que ainda está sendo escrita pelo nosso povo em busca da redemocratização e agora, nestas manifestações dos jovens nas ruas, procurando a democracia de verdade que ainda não existe no país. Afinal, em que país do planeta existe realmente a liberdade? Pois é, este mesmo sentimento da juventude de agora existia nos anos 60, 70 e 80 por aqui e em todos os países, o movimento internacional dos jovens rebeldes eclodiu em 1968 na França e avançou revolucionariamente por todos os lugares do mundo, por aqui também. Este movimento da cidadania hoje se assemelha em parte com a luta da chamada Geração 68, de que eu fiz parte naquela época da Ditadura aqui. A luta da juventude avançou por todos os lugares do mundo, até por aqui em Franca, no interior de São Paulo. A UNESP já fez duas ou três pesquisas sobre este fenômeno, uma relativamente pequena cidade do interior, vibrando junto com as grandes cidades brasileiras no movimento para mudar a realidade. Não era só derrubar a Ditadura e sim também mudar a realidade, algo que movia nos grandes ou pequenos centros do país os jovens, uns mais utópicos, outros mais realistas, uns beatniks, outros tipo hippies, outros ainda que idolatravam  Chê Guevara e a revolução socialista ou comunista, através de  da luta pacífica ou até armada, valia tudo para mudar o país e a vida. Eu me integrei a este movimento cultural e político, com toda minha energia e sentimento de época. Desde criança eu vinha tendo uma vivência  cultural (música, teatro) e ao chegar a adolescente me liguei ao Cinema Novo, liderado por Glauber Rocha, pertencia a um cineclube que tinha uns 150 sócios, semanalmente nos reuníamos para assistir filmes de arte (franceses, italianos, checos, etc.) e debater a realidade. Neste clima, a partir da minha experiência precoce de teatro, criei o argumento para um filme curtametragem e este pessoal todo me ajudou a realizar este projeto, um deles (jornalista Magno Dadonas que viria a se suicidar em São Paulo já pós-Ditadura), me ajudou a escrever o roteiro, outros atuaram na produção, no levantamento de recursos, aí a partir do Cineclube da AEC realizei um semidocumentário de meia hora, que envolveu tanta gente que acabou sendo chamado de “Procissão de Coisa e Gente”. Um curta precário que recebeu prêmio de fotografia e teve cópias exibidas pelo movimento dos jovens e dos cinemanovistas de todo o país. Foi através destes fatos e do filme que me integrei também à luta dos jovens então considerados subversivos, que lutavam para acabar com a Ditadura, mudar o Brasil e a vida, como também queriam os Beatles, os Rolling Stones e os rebeldes de todo o mundo na época. As drogas leves e pesadas foram infiltradas também no movimento dos jovens, corriam livremente, de graça, eu vivenciei este lado também daquela época, quando fumar um cigarro de maconha equivalia a gritar pela liberdade. Sob a liderança de jovens até mais politizados do que eu, alguns mais experientes, outros com menos cultura mas todos com a mesma energia para ir à luta, começamos a nos organizar em Franca, fazendo pichações, manifestações contra o preço do ingresso de cinema, tudo o que pudesse mostrar a nossa revolta diante da realidade e até, estudando a ideologia marxista, articulando ações para derrubar o governo ditatorial. A esta altura, a rapaziada daqui do interior estava ligada cultural e politicamente com o movimento dos jovens das grandes cidades também. O suplemento cultural (num jornal da cidade) e as poesias que fazíamos eram trocadas com as do pessoal de Salvador (Bahia), o meu pequeno curta era exibido em São Paulo, Rio, Belo Horizonte. Depois, quando começaram as prisões e já havia sido decretado o AI-5 no mesmo dia em que foram presos os integrantes do jornal alternativo Pasquim no Rio de Janeiro, nossa turma de subversivos era presa também em Franca, Ribeirão Preto, Uberaba. Cheguei a participar de um festival brasileiro de curtametragem, promovido pelo Jornal do Brasil do Rio, com outro curta que produzi e dirigi com amigos e amigas, “Vida Negra Negra”, de 90 segundos: o filminho recebeu menção do júri do Festival JB mas foi recolhido pela Censura, teve suas cópias apreendidas e desapareceu, iniciando o processo de perseguição cultural de que fui vítima naqueles tempos. No caso do nosso grupo de ação em Franca, além de pichações e variadas manifestações, estudávamos e nos preparávamos para lutar com tudo, chegamos a treinar tiro e sobrevivência no mato, pensando na possibilidade de um dia o movimento virar uma guerrilha. Já então, participávamos de todo o universo da subversão ou anti-Ditadura, eu me ligava a todas as tendências deste movimento. E por volta de 1970, quando a repressão começou a aumentar, fomos todos ou muitos de nós presos em várias regiões e cidades, alguns morreram, outros desapareceram, alguns enlouqueceram, muitos de nós fomos presos e torturados, toda uma geração de jovens idealistas sacrificados. Na primeira das quatro prisões que sofri, além das agressões físicas que todos os jovens subversivos sofríamos, já comecei a sentir também a tortura psicológica e a perseguição cultural. Um dos meus “entrevistadores” me disse logo de cara: “Você quer fazer cinema? Só se for em Cuba, aqui você nunca fará seus filmes”. Anos depois, quando eu já havia vencido um festival de telepeças na TV Cultura de São Paulo, “Happy End”, uma sátira à televisão, às novelas, à manipulação cultural, e então comecei a trabalhar na Blimp Filmes (que fazia reportagens para os programas Globo Repórter e Fantástico), neste tempo em que procurava me profissionalizar e me recompor após as prisões, torturas, eu quase não falava, tinha medo até de falar. Tive roteiros que escrevi para um programa de criança (Vila Sésamo) censurados, depois, 21 trabalhos ou projetos em especial em TV proibidos pela censura ditatorial, alguns que já estavam em produção, como a série de documentários para a TV Bandeirantes (o primeiro deles realizei e foi proibido, “Os Dramáticos Anos 70”), que era inspirado num Globo Repórter que eu havia pesquisado, escrito e dirigido “Os Incríveis Anos 50” sobre as raízes do movimento da juventude conhecido como Geração 68. Até uma novela, "Tic Tac", que eu ainda estava escrevendo o 16º capítulo foi proibida e paralizada, quando já estavam contratados atores e atrizes, como Bruna Lombardi e o diretor Carlos Augusto Guga de Oliveira (irmão do Boni). Depois ainda, eu venci um Concurso Nacional de Roteiros da então Embrafilme, mas não consegui ganhar o prêmio, que seria a realização do meu primeiro longa-metragem “Fim de Semana no 3º Mundo”, que teve seus originais destruídos, assim como os copiões e todo material de um outro curta que eu ainda filmava, “À Beira”, sobre jovens vivendo à margem do sistema em São Paulo. Enfim, depois de preso por aqui e no DOPS, de sofrer torturas física e psicológica, escapei vivo, mas continuei sendo perseguido até depois de 1986, quando oficialmente já terminara a Ditadura no país. Por exemplo, foi estranhamente interrompida a produção de um documentário “1999” para o que eu já tinha produtor, elenco contratado e quando já estavam começando as gravações e filmagens no Canal Independente em SP. Não consegui fazer cinema nem TV normalmente, não pude dar aulas mesmo tendo me formado em Letras, nem busquei o meu diploma de Direito, prá não ser preso, quando então nesta época estava meio que clandestino. Prá resumir a ópera, quando me soltaram, continuaram a me perseguir no meu trabalho e na minha vida, fui um dos profissionais de TV mais censurado do país, não consegui me afirmar como cineasta. Quando ainda nem havia sido preso, ganhei uma bolsa de estudos de Cinema na Tchecoslováquia, mas me impediram de tirar passaporte e de ir embora, prenderam a mim e ao funcionário da embaixada deste país que então era socialista. Para sobreviver, trabalhei como repórter do JT e outros jornais, escrevia artigos não assinados para revistas, até estórias-em-quadrinhos, até para a Walt Disney, fazia redação até em agências de publicidade, participava da realização de programas de madrugada etc. Por ocasião do movimento Diretas Já, fiz um jejum público para que houvesse eleições, dentro do espaço da Fundação Oscar Americano e Maria Luíza (em frente ao Palácio do Governo do Estado em SP) porque até isso foi proibido, cerca de 100 pessoas apareceram lá para se solidarizar comigo. E a partir de então, comecei a me integrar ao movimento da Não-Violência, ajudei o lançamento do filme do Gandhi no Brasil, participei da fundação do Partido Verde (PV), me liguei na cultura alternativa, parei de fumar, de beber ou de usar outras coisas, virei vegetariano e passei a me dedicar mais à luta ecológica, o que me levou a voltar pro interior, prá minha cidade que fica em cima do Aquífero Guarany, por aqui atuei como repórter de jornais, rádios e TVs, até que agora após ter sido anistiado pelo Ministério da Justiça, mantenho o meu próprio blog Folha Verde News e estou em meio à realização do documentário “Não-Violência X Fim do Mundo”, através do que estou retomando ou tentando retomar minha trajetória no trabalho com imagens, misturando TV, fotos e cinema, em busca da linguagem multimídia e da liberdade que ainda não conseguimos criar nem no Brasil nem no mundo. A luta continua. Eu agora estou longe de ser um garoto, mas continuo integrado ao movimento de cidadania e da juventude de hoje para mudar o Brasil e a vida... (Antônio de Pádua Padinha, repórter e ecologista, editor deste blog)

Padinha relata a sua trajetória para estudantes de Jornalismo da Unifran...

...compara sua geração com a atual jovens do Facebook

...fala sobre censura  vs. liberdade de informação

...resume o documentário "Não-Violência X Fim do Mundo" que está realizando


 Fonte: http://folhaverdenews.blogspot.com

5 comentários:

  1. O editor do blog Folha Verde News já havia dado um depoimento ao repórter Cássio Freires, da Rádio Imperador AM e se formando jornalista na Unifran, agora hoje, dá um outro, para Alline Casado, também estudante de Jornalismo e repórter de O Jornal, da cidade de Guaíra (SP): a aventura de um subversivo num país que ainda não se redemocratizou de fato.

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  2. Quanto ao blog, continuamos a dedicar o nosso webespaço às lutas da ecologia, da cidadania e da não-violência, com posts e comentários, com informações diariamente atualizadas, no sentido de estimular mudanças e avanços no Brasil, que precisa criar uma realidade sustentável para ter futuro.

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  3. "Precisamos criar todos juntos, pessoas de várias gerações e de variados setores da população, uma nova realidade no país", relatou aos estudantes de Jornalismo da Unifran o nosso editor de conteúdo, ao resumir a sua trajetória de luta que começou na época da Ditadura e se alia agora aos jovens do movimento de cidadania, que estão indo às ruas desde junho para mudar o Brasil.

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  4. O documentário "Não-Violência X Fim do Mundo" só deverá estar pronto e editado no ano que vem, devendo ser lançado durante a Copa do Mundo, aproveitando a exposição de mídia do país nesta época: continuam a ser feitas filmagens, gravações, edições, haverá um ator e uma atriz nacionalmente conhecidos como apresentadores e Padinha com este trabalho retoma a sua luta, que a Censura não conseguiu calar.

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  5. Mande vc tb a sua opinião, seu relato sobre este tema ou seu comentário aqui pro e-mail do nosso blog: navepad@netsite.com.br

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