segunda-feira, 16 de setembro de 2013

REPORTAGEM SOBRE SECA NA REGIÃO MAIS FÉRTIL DE MINAS ALARMA O BRASIL

Formação de caatinga no noroeste mineiro repercute em todo o país: serão tomadas medidas?
 
A reportagem especial de Mateus Parreiras, do jornal e site EM, que postamos aqui no blog  Folha Verde News surpreendeu muitos internautas: a seca já era um problema conhecido e crônico no norte do estado de Minas Gerais, porém no noroeste, região das matas do Cerrado, terras férteis e produtoras de grãos, é uma surpresa: "Postamos hoje na íntegra a segunda parte da reportagem do Parreiras, do jornal e site Estado de Minas, para ampliar as informações sobre esta situação caótica, bem como, mobilizando o apoio de líderes da ecologia e da cidadania de todas as regiões brasileiras, que têm acessado constantemente nossas notícias e comentários, também no Facebook. Com isso, a gente pretende estimular um movimento que leve aos governos estadual e federal a preocupação de todos, também dos cientistas do clima, pressionando as autoridades públicas por medidas imediatas e também por um programa de desenvolvimento sustentável, que reduza o avanço da nova caatinga, resgate o equilíbrio socioambiental desta zona de matas do Cerrado, a bem da economia e da ecologia de Minas e do interior do Brasil", comenta por aqui o ecologista Antônio de Pádua Padinha, ao editar em nosso blog este importantíssimo trabalho de jornalismo e meio ambiente. No contexto de todas as informações sobre a seca no noroeste mineiro, está também um comentário sobre a perda da vazão de água do Rio São Francisco (que é vital para todo o interior do país) em mais de 35% de suas águas, sofrendo assoreamento, seca, falta de chuvas e de um programa sustentável ali, onde estão muito mais que ameaçados três dos principais rios afluentes do São Francisco. Pela sua revitalização, pela produção de alimentos nesta região, para conservar vivos os recursos naturais do noroeste mineiro, alertamos sobre a urgência de medidas governamentais. Confira a extraordinária reportagem. e esteja onde você estiver, divulgue estas informações a favor da vida já e do futuro do nosso interior.  

Do Ribeirão Campo Grande, afluente do Urucuia, restaram o nome e o rastro árido. As pontes perderam a utilidade e hoje, no lugar de barcos, carros, motos e ônibus cortam o leito arenoso (Beto Novaes/EM/D.A Press)
O leito seco do ribeirão Campo Grande (afluente do rio Urucuia) virou estrada
"Do Ribeirão Campo Grande, afluente do Urucuia restaram o nome e o rastro árido. As pontes perderam a utilidade e hoje, no lugar de barcos, carros, motos e ônibus cortam o leito arenoso, Arinos, Dom Bosco e Urucuia: de curva em curva, nos remansos do Ribeirão Campo Grande dava para ver os cardumes de curimbas nadando contra a correnteza para desovar. “Até luziam, por causa do sol na escama prateada. Vinham do Rio Urucuia e depois desciam (de volta)”, conta o lavrador Afreu Vieira dos Santos, de 51 anos. “Essa é uma lembrança que a gente, que mora aqui, não esquece”, diz, com a voz triste. O tom melancólico se repete sempre que alguém que nasceu e cresceu ao longo dos 15 quilômetros de margens do Ribeirão Campo Grande, em Urucuia, no Noroeste de Minas, se lembra da época que suas águas caudalosas abasteciam fazendas, matavam a sede dos camponeses e divertiam a criançada. Nada mais disso é possível. O ribeirão morreu. Desde 2007 as águas não correm mais no Campo Grande, por causa da degradação de suas nascentes, problema que extermina aos poucos outros três córregos do município: o São Judas, o Seco e o Matão, que só correm no período chuvoso. A situação se repete em outras partes da região, onde a seca prolongada assola comunidades e impulsiona processos de desertificação, como mostra a série de reportagens que o Estado de Minas publica desde ontem. “O Ribeirão Campo Grande é um afluente de primeira grandeza do Rio Urucuia, que por sua vez é um dos três principais tributários do Rio São Francisco. O que aconteceu com o ribeirão é uma verdadeira tragédia ambiental”, considera o coordenador do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio Urucuia, Julio Ayala. Por motivos como esse, a perda de água na bacia do Rio São Francisco foi comprovada pelo National Center for Atmospheric Research (NCAR) dos Estados Unidos, em estudo de 2010, no qual dados coletados entre 1948 e 2004 nos 925 maiores rios do planeta mostram que o Velho Chico teve sua vazão reduzida em 35%.
No Campo Grande, no leito em que corria o ribeirão restaram pó, areia e cascalho. De margem a margem, o curso seco chega a ter 51 metros de largura, que hoje se assemelha a uma autoestrada cortando o cerrado. As pontes construídas para atravessar o Campo Grande se tornaram inúteis. Em certos pontos, as estradas vicinais que interligam povoados e fazendas simplesmente cruzam o ribeirão morto, que de tão largo torna pequenos os ônibus que o atravessam. As nascentes do ribeirão, na Serra de Urucuia, secaram completamente depois que as terras foram desmatadas, sofreram com incêndios e se tornaram estéreis. A irregularidade e a redução do volume de chuvas agravaram o problema. “Pelo mapeamento do satélite, podemos comprovar que a área das nascentes do Ribeirão Campo Grande também sofre um processo de desertificação. Progressivamente as terras vão perdendo sua cobertura e não absorvem mais a água das chuvas. Por isso as nascentes secaram”, explica o coordenador do CBH do Rio Urucuia.
Memórias de uma vereda que morreu: O lavrador Afreu dos Santos lembra que a situação era diferente uma década antes, quando ele guiava um carro de boi perto de um desses cursos de água. “Todos os dias passava pelas nascentes, porque precisava cortar palha para fazer telhados e paredes para barracões na região. Era tão fundo que a gente tinha de subir na mesa (carroceria) do carro de boi”, lembra. Mais do que nostalgia, a dona de casa Maria Maurícia Silvia de Souza, de 50, sente a falta da água, fundamental para cozinhar, lavar as roupas e para a higiene dela, do marido, dos dois filhos e do neto de 1 ano e 8 meses. “A gente usava a água do ribeirão para tudo. Como pode acabar com um rio grande daqueles? As pessoas não pensam em quem depende dos rios. A gente só não foi embora porque a Defesa Civil trouxe uma cacimba de encher com caminhão-pipa”. Em Arinos, município a 650 quilômetros de Belo Horizonte, também no Noroeste, a seca e a degradação ambiental fulminaram uma lagoa inteira, que até 2007 tinha dois quilômetros quadrados, pouco menos que a Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, que tem 2,4 km2. Hoje a chamada Lagoa Grande não passa de um contorno de areia deixada pela marca de suas bordas em meio ao cerrado. O leito arenoso ainda sustenta uma vegetação rala, chamada de carrasco, e que geralmente resiste em áreas em processo de degradação. Um pequeno lago vizinho segue o mesmo caminho e ano após ano perde parte do espelho d’água, revelando uma areia fina sobre a qual quase nada sobrevive.
   Desertificação mata rios no Noroeste de Minas: ainda considerado um dos celeiros de Minas, noroeste mineiro enfrenta desaparecimento de cursos d'água e lagos, uma das faces mais cruéis da desertificação que avança sobre seus municípios. De acordo com a Prefeitura de Arinos, as condições climáticas pioraram muito na região. Na última década, por exemplo, o índice de precipitação anual chegava a 1.200 milímetros. Nos últimos anos, chegou a 780mm, abaixo até do limite para o que caracteriza uma área como parte do semiárido, que é de 800mm. A situação é a mesma enfrentada no município de Dom Bosco, onde dezenas de córregos secaram. De acordo com a administração local, as precipitações anuais também se reduziram na última década, de  1.200 mm para 900mm. Em 2012, de acordo com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a região que compreende Formoso, Arinos, Dom Bosco, Bonfinópolis de Minas, Riachinho, Urucuia, Chapada Gaúcha e Buritis acumulou entre 600mm e 1.100mm de chuvas. Juntas, as cidades ocupam área mais extensa do que a castigada pela última grande seca que atingiu o estado, em 2007". (Texto de Mateus Parreiras).
 
Fontes: www.em.com.br
              http://folhaverdenews.blogspot.com
 

5 comentários:

  1. Superimportante que esteja repercutindo a série de reportagens de Mateus Parreiras no jornal e site Estado de Minas, bem como, os posts daqui do nosso blog da ecologia e da cidadania: urge que autoridades governamentais se informem e tomem providências antes da que este problema se transforme num drama socioambiental de todo o interior brasileiro.

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  2. Dentro da Bacia do Rio Urucuia há 600 mil hectares nos quais a produção não é sustentável e degrada o solo com o tempo. Desses, pelo menos 30% (180 mil hectares) já sofrem algum estágio de desertificação”, atesta Ayala, engenheiro-agrônomo e consultor do comitê que propõe e fiscaliza as políticas hídricas em um dos dois rios mais importantes da região, o Urucuia, o outro é o Rio Paracatu. Ambos no circuito desta seca inesperada, a prejuízo também do São Francisco, o rio do interior do país.

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  3. Segundo o professor de geografia física da USP José Bueno Conti, que tem livre-docência em desertificação em áreas tropicais, o noroeste mineiro está na periferia do semiárido e é uma região classificada como subúmida. Esses dois tipos de clima são os mais propensos à desertificação. “Verificamos naquela região um período de estiagem estendido e severo. Quando há prolongamento da seca por dois ou três anos, como vem ocorrendo, os sistemas hidrológicos e geológicos (solos) e todo o ecossistema podem entrar em colapso e desencadear o processo de desertificação". É que o que já está acontecendo. E quais as medidas que estão sendo tomadas? Após este alerta, pode ser que elas comecem a ser programadas, com atraso mas ainda em tempo.

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  4. Se vc está aí no noroeste de Minas ou em alguma região com problemas similares, entre em contato com o nosso blog, para onde vc também pode e deve mandar sua mensagem, sua opinião, sua sugestão para solucionar o drama da seca numa das regiões mais produtivas de Minas Gerais.

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  5. A monocultura de grãos é a grande responsável pela maioria dos processos de desertificação no Brasil. O consumo de água que estas culturas necessitam é enorme, e causa um enorme desequilíbrio na absorção e armazenamento subterrâneo de águas, refletindo nos rios porque os lençois freáticos os alimentam.
    A monocultura de soja no centro-oeste é, por exemplo, uma grande exportação de água na realidade.

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