domingo, 3 de novembro de 2013

PROBLEMA DA SECA NO NORDESTE NÃO É A FALTA DE ÁGUA


Mas tudo continua como antes no reino da Seca apesar de existirem soluções e até água

Recebemos de Antônio Alves, estudante de Geologia que nasceu em Crato (Ceará) entre outras informações um texto do jornalista Leonardo Sakamoto, postado em seu blog, dentro da pauta deste final de semana aqui no Folha Verde News: ontem, destacamos aqui postagem sobre a existência comprovada em pesquisas do IPT da USP, entre outras, realizadas no semiárido brasileiro, de uma alternativa de solução de desenvolvimento sustentável (viável economicamente e avançada ecologicamente) que já poderia estar livrando os nordestinos do sofrimento da maior seca dos últimos tempos. Ressaltamos os nove estudos realizados no Piauí pelo geólogo João Alberto Bottura (confira a seguir nesta mesma página e leia na íntegra o post Água subterrânea do nordeste é a esperança diante da seca) que foram todos engavetados: ao contrário, um só estudo feito pelo mesmo Bottura lá no Deserto do Saara foi utilizado pela Líbia e ali já há um sistema promissor de pomares e de outros plantios, feitos à base do uso das águas subterrâneas. Na questão da chuva, nesta mesma postagem também destacamos ainda a opinião de geólogos informando que no Nordeste chove até mais que na Califórnia (USA), onde, ao contrário do sofrimento do povo da caatinga, existe uma valiosa agroecologia de frutas com captação e irrigação dos recursos hídricos subterrâneos. Lado a lado com a miséria nordestina do Brasil do semiárido, a riqueza californiana dos Estados Unidos...Quer dizer, o problema não é a falta de água mas de um programa que se inspire em pesquisas científicas e implante a sustentabilidade no sertão. O problema é a falta de vergonha dos políticos, como sugere o cientista Bottura. Mas vamos a alguns trechos de comentários sobre esta questão feitos pelo Leonardo Sakamoto, que lidera a ONG Repórter Brasil.  

A Seca do Nordeste no semirárido brasileiro não é somente falta d"água ou de chuva: falta cidadania...   

 
Aqui, também, informações do blog de Sakamoto, da entidade Repórter Brasil
"Inúmeros municípios já decretaram estado de emergência por conta da seca prolongada no Nordeste. O nível dos açudes está baixo, sendo que alguns já secaram. Plantações se perderam. Quem tem cisterna ou reservatório na propriedade está conseguindo garantir qualidade de vida para a família e as criações. Tempos atrás, durante outra estiagem, fiz um ping-pong curto com João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco. Ele é um dos maiores especialistas na questão hídrica nordestina. Entrei em contato com ele de novo e refiz as perguntas. Pouco mudou. Por mais que haja evaporação e açudes sequem, a região possui uma grande quantidade de água, suficiente para abastecer sua gente. Segundo Suassuna, o problema continua não sendo de falta de recursos naturais, mas de sua distribuição.O Nordeste brasileiro é detentor do maior volume de água represado comparado a outras regiões semi-áridas do mundo. São 37 bilhões de metro cúbicos, estocados em cerca de 70 mil represas. A água existe, todavia o que falta aos nordestinos é uma política coerente de distribuição desses volumes, para ao atendimento de suas necessidades básicas, uma democratização dos seus recursos hídricos. Esta distribuição de água  - e cá entre nós, com a captação da água subterrânea também  - seria mais econômica e mais ecológica, mais viável e mais objetiva que o megaprojeto da Transposição do Rio São Francisco, por exemplo. Este projeto governamental, remanescente de uma idéia que surgiu ainda na época do Império, visa ao abastecimento de cerca de 12 milhões de pessoas no Nordeste Setentrional, com as águas do rio São Francisco. Ele foi idealizado para retirar as águas do rio da integração nacional através de dois eixos (Norte e Leste), abastecer as principais represas nordestinas e, a partir delas, as populações. Hoje, as obras estão praticamente paralisadas, com alguns trechos dos canais se estragando com o tempo, apresentando rachaduras. O projeto é desnecessário tendo em vista os volumes d´água existentes nas principais represas nordestinas (e na alternativa de captação nos lençóis freáticos, como do Piauí). Da forma como o projeto foi concebido e apresentado, com o dimensionamento dos faraônicos canais, fica clara a intenção das autoridades: será para o benefício do grande capital, principalmente os irrigantes, carcinicultores [criadores de camarão], industriais e empreiteiras. A solução do abastecimento urbano foi anunciada pelo próprio governo federal, através da Agência Nacional de Águas (ANA), ao editar, ainda em dezembro de 2006, o Atlas Nordeste de Abastecimento Urbano de Água. Nesse trabalho é possível, com menos da metade dos recursos previstos na Transposição, o beneficio de um número bem maior de pessoas. Ou seja, os projetos apontados pelo Atlas, com custo de cerca de R$ 3,6 bilhões, têm a real possibilidade de beneficiar 34 milhões de pessoas, em municípios com mais de 5.000 habitantes. O meio rural, principalmente para o abastecimento das populações difusas – aquelas mais carentes em termos de acesso à água, poderá se valer das tecnologias que estão sendo difundidas pela ASA (Articulação do Semiárido), através do uso de cisternas rurais, barragens subterrâneas, barreiros, trincheiras, programa duas águas e uma terra, mandalas. Enquanto isso, o orçamento do projeto de Transposição não pára de crescer. Pós-Ditadura, ainda no governo Sarney, ele foi dimensionado com um único eixo e tinha um orçamento estimado em cerca de R$ 2,5 bilhões. Na gestão Fernando Henrique, ganhou mais um eixo e o orçamento pulou para R$ 4,5 bilhões. No governo Lula, saltou para R$ 6,6 bilhões. E, agora, no governo Dilma, chegou na casa dos R$ 8,3 bilhões. Como se trata de um projeto de médio a longo prazo, essa conta chegará facilmente à cifra dos R$ 20 bilhões nos próximos 25 a 30 anos.  Olha que no ano passado, a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União constataram um desvio de R$ 312 milhões em verbas do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), que poderiam estar sendo utilizadas para diminuir o impacto da estiagem deste ano. Como disse, o problema (que não é novo) não é de falta e sim de distribuição. De água, de decisões, de recursos. Enfim, de cidadania. E não causada apenas pelo velho coronelismo, que foi travestido de modernidade, e ainda assola a região. Mas pelas novas políticas de desenvolvimento (ou do "desenvolvimentismo", acrescentamos nós)  produzidas sob a justificativa do "progresso" e da renovação, mas que na realidade mantém tudo como sempre foi". (Trechos de textos de Leonardo Sakamoto).  Enfim, podemos concluir que tudo está como antes no reino da indústria da seca.

Fontes: Fundação Joaquim Nabuco
               Repórter Brasil
               blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br
               http://folhaverdenews.blogspot.com

5 comentários:

  1. Segundo Sakamoto, o atual governo mudou a política de apoio à construção de cisternas que vinha sendo tocada pela ASA através do projeto “Um Milhão de Cisternas para o Semiárido”. Para acelerar a produção de cisternas (gigantes caixas d'água que guardam a água da chuva), as placas de cimento foram trocadas por pré-moldados de polietileno – que podem deformar com o calor, custam mais que o dobro que os feitos com a matéria-prima anterior, não utilizam mão-de-obra local na sua confecção (não gerando renda) e tem manutenção mais complexa do que se fossem feitos de alvenaria.

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  2. Variadas entidades socioambientalistas e organizações sociais criticaram a tomada de decisão centralizada, sem questionar quem vem executando e se beneficiando da política pública na caatinga, como neste caso citado antes das cisternas. Ou como a falta de atenção e de uso de estudos realizados por geólogos, como do IPT da USP.

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  3. Alertamos mais uma vez que o problema (que não é novo) não é de falta e sim de distribuição. De água, de decisões, de recursos. Enfim, de cidadania. Falta de vergonha. E de um programa de desenvolvimento sustentável.

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  4. Existem pesquisas comprovadas de soluções econômicas e ecológicas, como a captação e distribuição de águas subterrâneas. Mas carece de uma gestão verdadeiramente pública e sustentável no Nordeste, onde ainda predomina no reino da caatinga a indústria bilionária da seca.

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  5. Mande vc tb o seu contato, as suas informações ou pesquisas, a sua mensagem ou opinião sobre esta pauta (água para a seca do nordeste e da política do país)...Envie para navepad@netsite.com.br

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