segunda-feira, 26 de maio de 2014

ELZA SOARES ESCREVE SOBRE ELA, GARRINCHA E A COPA DE 70: PADINHA TAMBÉM

Padinha escreve aqui lances dramáticos sobre os bastidores da bola e da realidade do país

"Roma, 1970. A Copa que não comemorei". Normalmente, não sou muito de ler jornais, prefiro na ordem, internetar e ouvir rádio ou ler um livro ou ver um filme para me informar sobre isso ou aquilo. Mas nesse domingo agora foi diferente, eu estava fora de casa e meus parentes assinam a Folha de São Paulo e levei um susto quando (folheando) abri num caderno que eu desconhecia (Ilustríssima) ali nas tradicionais Páginas Ilustradas deste jornal. E outra surpresa melhor ainda, quando li de um só fôlego e de cabo a rabo, em 2 minutos o texto assinado pela cantora Elza Soares (ainda em atividade e com alguns shows marcados para Sampa agora no começo de junho, no clima da Copa de 2014, no esquema samba e futebol). Elza relata neste artigo que Mané Garrincha e ela foram embora para Roma, onde acabaram vivendo num hotel como exilados políticos desde o início daquele ano em que a Seleção Brasileira iria buscar o Tri no mundial da Fifa no México. O grande craque das pernas tortas e dribles que desmontaram as defesas de vários selecionados nas conquistas mundiais em 58 na Suécia e em 62 no Chile, já havia passado da idade e dos limites das baladas, ele não havia sido convocado por Zagalo e nem antes pela Seleção do Povo, do jornalista e socialista João Saldanha. CBF informa: sai Saldanha, entra Zagalo. Garrincha ainda havia sonhado ter sido chamado para compor o banco e jogar alguns minutinhos num jogo difícil (quase da mesma forma que Ronaldinho Gaúcho hoje em 2014 poderia fazer...). Mesmo sendo o gênio da bola, naquela vez não fora pro México junto com Pelé. Mas o pior não foi isso. O extraordinário jogador (o último ponta direita típico do nosso futebol) tinha se apaixonado pela cantora Elza Soares, mas a casa deles foi invadida por uns sete soldados com fardas do Exército. Os dois fugiram pelos fundos, mas a casa deles foi metralhada. Garrincha (nome e alma de passarinho), que era um cara sentimental, de origem simples e indígena, boa gente, ficou muito triste com aquilo, a gota d'água para ir embora do Brasil. Militares acreditavam que Elza Soare e Garrincha estavam tramando um trabalho com Geraldo Vandré, então visto como inimigo cultural da então chamada Revolução. Lá da Itália, exilado com a sua última paixão Elza Soares, ele via pela TV os jogos do Brasil na Copa do México e mesmo  as belas vitórias lhe davam tristeza, pelos dois motivos que expliquei aí em cima. Elza Soares escreve neste artigo que Garrincha caiu em depressão e nem saia mais do hotel, apenas bebia, cada vez mais. Ela conseguiu uma participação no show de Josephine Backer (uma artista meio francesa e meio americana que fazia turnê por aquele país). E numa noite, nos bastidores se encontrou com Chico Buarque e Toquinho, que estavam também voluntariamente exilados em Roma, por causa de alguns problemas com a censura e a Ditadura Militar que então endurecia as coisas no Brasil. Os dois passando sufoco. Por um tipo de solidariedade entre exilados, Elza arranjou uma participação de Chico e seu amigo Toquinho na parte do encerramento do show de Josephine Backer. Chico que sonhava ser jogador e Garrincha, cantor, organizaram alguns jogos shows e isso fez melhorar em parte a situação para todos naquele começo da década de 70. Garrincha ainda recebeu um convite de Oswaldo Brandão para uma última tentativa de voltar a jogar profissionalmente. Ficou alguns meses se recuperando de um joelho, cada vez mais inchado, participou rapidamente de um ou outro jogo. Eu vi a última partida de Garrincha, foi no Pacaembu, contra o São Paulo, Corinthians 1 a 0: Garrincha como nos bons tempos driblou dois joões (como ele chamava os adversários) e fez um gol, chutando sem ângulo da linha de fundo. Foi seu último lance, ele saiu carregado, ali ao lado eu cheguei a ouvir o gênio das pernas tortas gemendo de dor, enquanto a torcida comemorava. Naquele instante e hoje, revendo estes fatos contados por Elza Soares e passando pela minha memória estes lances dramáticos do Pacaembu, eu também um perseguido político naquela época (em que eu me sentia exilado em meu próprio país), eu também me senti fora de jogo. Eu e toda aquela geração rebelde de garotos e garotas que foram considerados subversivos por amar a liberdade e por tentarem virar o resultado do jogo na realidade do Brasil...(Antônio de Pádua Padinha)

Garrincha ainda tentou voltar e fez gol pelo Corinthians no seu último jogo

Para muitos, faltava alguém ao lado de Pelé nesta Seleção de 70

Garrincha sonhava cantar com Elza Soares....

Chico  também exilado em Roma fez uns jogos shows com Garrinha...

O gênio da camisa 7 que abria qualquer defesa ficou fora da Copa e do país...


Até parece que o Brasil estava destruindo a Nação...

Um dos maiores jogadores de todos os tempos




Fontes: www.iberoamericana.net
             www.folhaverdenews.com


9 comentários:

  1. Este encontro de Elza Soares e Garrincha com Chico Buarque e Toquinho abriu para estes dois músicos, então também exilados voluntariamente em Roma, a mídia, os dois passaram a fazer algum sucesso na Itália, onde Toquinho compôs "Aquarela", um dos maiores hits da música brasileira na Itália de todos os tempos.

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  2. Se não fosse também Jposephine Backer nem Elza Soares e Garrincha e muito menos Chico e Toquinho teriam conseguido escapar do sufoco daqueles tempos: só por ser amiga pessoal de Geraldo Vandré, Elza foi perseguida pelo governo ditatorial da época. Esta matéria resgata esta realidade.

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  3. Caetano, Gil e outros músicos também foram exilados em Londres e foram visitados por Roberto Carlos, que gravou a música "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", do Caetano Veloso, que resgatou o trabalho dos ex-tropicalistas como ele.

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  4. Vinicius de Moraes escreveu sobre esta época o poema "Pátria Minha", que virou um documentário de Miguel Faria Júnior em 2005. O texto diz: "A minha pátria é como se não fosse, é íntima doçura e vontade de chorar, uma criança dormindo é minha pátria. No exílio, assistindo dormir meu filho choro de saudade da minha pátria".

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  5. Dedico este post também a Oswaldo Brandão, o ex-jogador Lance e outros amigos da época em que Garrincha tentou pela última vez voltar ao futebol. Pelo menos. marcou mais um gol lindo e saiu do futebol com uma vitória no Pacaembu...(é o comentário do nosso editor Padinha).

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  6. Mande vc tb a sua informação ou comentário sobre esta pauta de hoje em nosso blog de ecologia e de cidadania, agora que estamos às portas da Copa do Mundo da Fifa e do Brasil, em 2014: envie a sua msm para o nosso e-mail: navepad@netsite.com.br

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  7. "Pelo que vi nesse texto aqui com mais detalhes e também no artigo da Folha, Elza Soares merece ser anistiada, é um assunto acredito para a Comissão da Verdade": é o e-mail sem assinatura que recebemos da USP de Rbeirão Preto, enviado por internauta que se diz "ex-colega de Sócrates na Faculdade de Medicina".

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  8. Envie seu comentário vc tb: navepad@netsite.com.br

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  9. "Só faltava isso prá eu conhecer e adorar de vez Garrincha, futebol-arte, rebeldia, perseguido no tempo da Ditadura, um cara da liberdade, um exemplo pros jogadores executivos da bola hoje em dia": é o comentário da estudante da ECA da USP, Luíza Almeida Salles.Envie vc tb a sua opinião para navepad@netsite.com.br

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