terça-feira, 5 de maio de 2015

NÃO EXISTE FORMA SEGURA DE USAR AGROTÓXICOS QUE NÃO SÃO UMA SOLUÇÃO E SIM UM PROBLEMA CADA VEZ MAIOR

Especialista da Universidade Federal do Ceará afirma que o uso seguro de agrotóxicos é um mito e precisa ser derrubado


Raquel Rigotto foi entrevista pela jornalista Leila Leal: a professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), está sendo o destaque hoje no site de assuntos socioambientais EcoDebate e aqui no blog da ecologia e da cidadania Folha Verde News resumimos alguns dos principais conteúdos desta entrevista. Raquel Rigotto atua como coordenadora do Núcleo Tramas (Trabalho, Meio Ambiente e Saúde), pesquisa a relação entre agrotóxicos, ambiente e saúde no contexto da modernização agrícola no estado do Ceará. Ela defende que o debate sobre uso de agrotóxicos é um tema estratégico e critica a ideia de que na prática possa ser possível utilizá-los de forma segura. Confira aqui a seguir um resumo da sua posição que mostra a necessidade de um desenvolvimento sustentável no meio rural e urbano, equilibrando economia e ecologia. mudando os hábitos e a realidade do país e da vida.


Um conteúdo crítico amplo e profundo sobre a situação dos agrotóxicos no país agora

Urge mudar a perigosa realidade dos agrotóxicos na atualidade brasileira

"Os agrotóxicos não podem ser vistos apenas como um conjunto de substâncias químicas que podem causar riscos químicos à saúde. Eles precisam ser entendidos no contexto em que são utilizados, que envolve o processo de modernização agrícola conservadora em curso no Brasil, que tem a ver com a reestruturação produtiva no campo e a divisão internacional da produção e do trabalho, na qual cabe ao Brasil a produção de commodities de origem agrícola. Esse contexto mais geral precisa ser considerado, precisamos entender o agronegócio não apenas em sua dimensão de latifúndios e monoculturas, mas também como um subsistema técnico e político que envolve o capital financeiro, a indústria química, a indústria de biotecnologia, sementes, fertilizantes, tratores, enfim, toda a indústria metal-mecânica. Esse contexto determina a vulnerabilidade das populações aos agrotóxicos. E que populações são essas? Temos em primeiro lugar os trabalhadores das empresas, mas também outros segmentos de trabalhadores que são influenciados por esse processo, como os pequenos produtores. No Ceará, os pequenos produtores foram colocados na condição de parceiros do agronegócio, o que na verdade é uma forma de terceirização. O cultivo de fumo no Rio Grande do Sul também é um exemplo disso, são pequenos produtores que estão completamente subordinados às exigências da indústria fumageira. Além desses trabalhadores, são atingidos os moradores dessas regiões. No Mato Grosso, há municípios completamente cercados pelo agronegócio, que atinge até mesmo a reserva do povo Xingu: há rios que nascem fora de sua área e cuja água já entra no território indígena contaminada por agrotóxicos. Há também a questão dos consumidores de alimentos, que têm uma ingestão diária aceitável de veneno. É o veneno nosso de cada dia na alimentação. E, ainda, temos os trabalhadores que fabricam esses venenos. Há conflitos ambientais já identificados com esses trabalhadores de fábricas e as comunidades do entorno das fábricas, que são contaminadas. No Nordeste, há uma fábrica de agrotóxicos que tem problemas sérios com 11 bairros na sua vizinhança por causa da sua contaminação atmosférica. Além disso, a questão dos agrotóxicos é abrangente porque vai nos ajudar a resgatar a interrelação campo e cidade. Na medida em que o país se urbaniza, tendemos a  pensar o Brasil como um país urbano  (e há uma conotação simbólica de que isso nos aproxima mais do perfil dos países desenvolvidos e deixa para trás o atraso do campo) perdendo de vista que há uma dinâmica rural-urbana fundamental. Isso se expressa na produção de alimentos, na manutenção de riquezas naturais como a água, os microclimas, as chuvas (importantes para a cidade e ‘produzidas’ no campo) e também do ponto de vista da organização rural. A concentração de terra, que expulsa pessoas das áreas rurais, faz com que as cidades fiquem cada vez mais ingovernáveis, por causa da migração e de todos os processos de degradação da qualidade de vida, como a violência, as drogas e outros. Enfim, faz com que toda a problemática ambiental urbana cresça. Os agrotóxicos dão oportunidade para discutirmos tudo isso, e também para debatermos a ciência e seus limites hoje. Há substâncias químicas que nos mostram a insuficiência dos conhecimentos produzidos para que possamos ter alguma segurança ao lidar com elas. Um exemplo é o problema da exposição múltipla a vários ingredientes ativos, que ainda carece de respostas. São várias situações que nos colocam os limites da ciência e que também desafiam o estado, porque não há como tratar os problemas dos agrotóxicos apenas como problema agrícola ou agrário, apenas como problema de saúde ou de meio ambiente. Esse é um problema que perpassa diversos setores das políticas públicas e exige uma atuação integrada. Os efeitos crônicos causados pela exposição a agrotóxicos são muito diversificados. Cada composto e princípio ativo tem um perfil toxicológico e uma nocividade própria, e isso se relaciona a uma série de patologias que vão desde dermatoses até infertilidade, abortos, cânceres, malformações congênitas, distúrbios imunológicos, endócrinos, problemas hepáticos e renais… Mas todas essas patologias têm etiologias variadas, o que significa que podem ser causadas por outros elementos que não os agrotóxicos. E, como somos acostumados a fazer raciocínio muito linear entre doença e agente causal, isso fica muito complicado. É possível, por exemplo, quando uma empresa quer se negar a assumir suas responsabilidades, que ela diga que o trabalhador teve uma leucemia porque a família tem carga genética para isso. Do ponto de vista epidemiológico, os estudos têm evidenciado essas correlações, demonstrando que populações mais expostas, comparando com não expostas, têm carga maior de doenças. Mas gerar essa informação é difícil. No caso do Ceará, o instituto que recebe a maioria dos cânceres hematológicos não tem na sua ficha de investigação o dado sobre a ocupação do trabalhador. Isso é um exemplo da dificuldade que temos para fazer um perfil que relacione a ocupação e, por consequência, o contato com agrotóxicos, a uma determinada doença. O momento que marcou na história da humanidade a questão dos agrotóxicos  foi há cerca de 50 anos. A humanidade tem por volta de 8 mil anos de história conhecida na agricultura, sendo que nós vivemos e nos alimentamos por todos esses milênios sem os agrotóxicos e transgênicos (o que é um outro argumento muito comum agora, de que, de repente, não podemos mais viver sem os transgênicos). É claro, há relatos de que desde os povos mais antigos havia uso de algumas substâncias para controle de pragas e de processos de cultivo, a humanidade tem um acúmulo nesse sentido. Estou me referindo a esse uso massivo de agrotóxicos, estimulado pela indústria química, que pode fazer propaganda na televisão, ter isenção de impostos como o ICMS, IPI, Cofins, PIS/Pasep. Então, a primeira coisa importante de tomarmos consciência é que já vivemos muitos anos como humanidade sem os venenos, e que depois do uso de venenos a produtividade da agricultura certamente se elevou, mas a segurança e a soberania alimentar da humanidade não. Continuamos tendo quase um bilhão de pessoas desnutridas ou subnutridas no mundo, então está clara que essa não é uma crise que seja explicada pela subprodução, mas sim pela má distribuição. Isso se deve ao fato de que aquilo que o agronegócio e a modernização agrícola produzem não são alimentos, mas sim commodities, o que é muito diferente. Há todo um aparato jurídico, institucional, legal, para regular o uso de agrotóxicos e o que vemos é que esse aparato não tem sido eficaz. O que se vê é que, desde o processo de normatização, houve interferência. Temos documentos dos produtores de agrotóxicos em que afirmam a sua estratégia de interferir no processo regulatório, fazer lobby, interferir na capacitação dos servidores públicos e dos operadores de direito que lidam com essa área. Então, desde o início da regulação, há problemas. Quantos desses estatutos que estão previstos na legislação funcionam efetivamente? O receituário agronômico não funciona e há pouquísmos laboratórios, no país inteiro, que são capazes de fazer análise da água e da contaminação humana por agrotóxicos. Estamos agora vendo o processo de revisão da Portaria 518, que diz respeito à potabilidade da água para consumo humano: um dos grandes dramas é esse, podemos colocar lá todos os 450 ingredientes ativos de veneno registrados que temos no Brasil, mas onde vão ser analisados para cada uma das prefeituras de cada um dos quase 6 mil municípios do nosso país? Não temos essa capacidade instalada. Fazemos o licenciamento ambiental desse empreendimento, mas não temos condições de monitorar se as condicionantes e requisitos colocados no licenciamento são cumpridos, porque não há fiscal, não tem diária, não tem aparelho e laboratório. Há também uma série de argumentos que foram trazidos pelo Censo Agropecuário, através do qual podemos constatar que há mais de 5 milhões de estabelecimentos com mais de 16 milhões de trabalhadores rurais dos quais um número significativo é de crianças, com escolaridade considerada baixa. Como podemos pensar em uso seguro numa vastidão dessa? A assistência técnica é precária. O Censo mostra que as propriedades que mais receberam assistência são aquelas acima de 200 hectares, ou seja, há milhões de propriedades de pequenos produtores que estão à revelia de assistência técnica. Como podemos imaginar que o uso seguro acontecerá assim? Qualquer pessoa pode chegar a uma loja e comprar o veneno que o balconista estiver interessado em vender e usar do jeito que o balconista ensinar. É muito difícil pensar que seja possível um uso seguro assim nesta realidade". (Parte da entrevista de Raquel Rigotto que se afirma como a principal especialista em agrotóxicos no país). 

Há vários perigos e problemas para a saúde das pessoas. do ambiente...

...e dos alimentos consumidos em grande escala pelos brasileiros...

...que acumulam quantidades excessivas de agrotóxicos no organismo

No Brasil são vendidos livremente 10 agrotóxicos proibidos em muitos países



Fontes: EPSJV (Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio)
             www.ecodebate.com.br
             www.folhaverdenews.com 


7 comentários:

  1. O primeiro e fundamental ponto que colocamos em questão após esta análise da superespecialista Raquel Rigotto, da Universidade Federal do Ceará, é a urgência de aumentar no Brasil o consumo e diminuir o preço dos alimentos orgânicos, livres dos agrotóxicos.

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  2. A entrevista no site EcoDebate aconteceu pós-palestra no Seminário Nacional Contra o Uso de Agrotóxicos, em que a pesquisadora Raquel Rigotto mostrou a importância de esclarecermos se estamos discutindo agrotóxicos e saúde ou agrotóxicos e doença. Na cultura positivista que temos, existe uma certa tendência, tantos dos empresários como algumas vezes até da própria mídia, de procurar por agravos à saúde que pudessem ser atribuídos aos agrotóxicos, identificando e quantificando casos. É como se, para validar a questão dos agrotóxicos como um problema digno de atenção, relevante e urgente, como se precisássemos ter geração e comprovação da doença para começarmos a pensar no assunto e nos problemas dos agrotóxicos. O que estamos propondo é que o conhecimento sobre a nocividade dos agrotóxicos está dado a priori, porque ao defini-los como agrotóxicos estamos dizendo que são biocidas, que fulminam a vida, e ao atribuir a eles uma classificação toxicológica que vai de pouco tóxico a extremamente tóxico também estamos deixando isso claro. Não há classificação que seja ‘não-tóxico’.destes produtos...

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  3. "Em termos da classificação ambiental, que se relaciona à resistência do solo, e aos estudos da biomagnificação, teratogênese, mutagênese e carcinogênese [referentes ao acúmulo de produtos tóxicos ao longo da cadeia alimentar e à possibilidade de anomalias e malformações fetais, mutações genéticas e desenvolvimento de câncer].Os agrotóxicos já estão classificados nesse sentido. Não há que se perguntar se são veneno ou remédio, está claro que são um tipo de veneno. Esse potencial de dano está dado, e defendemos que não precisaríamos provar a existência do dano para postergar políticas públicas e iniciativas dos agentes econômicos para combater esse problema. Poderíamos, desde já, estar trabalhando na perspectiva de que existe um risco e um contexto de risco, partindo para o controle desses riscos", explicou ainda na entrevista à Leila Leal esta especialista.

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  4. "Diante desta informações e comentários é urgente que se faça uma mudança radical na estrutura de produção e no consumo de alimentos, que sendo orgânicos, sem agrotóxicos, são sustentáveis, ajudando a economia de doenças e a ecologia da saúde do ambiente e dos consumidores": é o que em resumo diz o nosso editor de conteúdo no blog, o repórter e ecologista Antônio de Pádua Padinha.

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  5. Mande vc tb a sua informação, comentário ou opinião sobre esta pauta de grande importância: envie para navepad@netsite.com.br e/ou também para padinhafranca@gmail.com

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  6. "Gostaria de comentar que o crime dos agrotóxicos no país tem responsáveis e eles precisam ser investigados e punidos, creio que isso é tão vital como o Mensalão, as propinas da Petrobrás e os desvios do HSBC na Suiça", opina Pedro Estevão,graduado em Economia na USP que atua no mercado de ações em São Paulo (SP).

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  7. "A questão dos agrotóxicos pela sua gravidade e suspeitas de negociatas deveria ser tratada com a mesma intensidade que os processos Lacava Jato, Petrolão, Mensalão": é a opinião de Luiz Lopes, de Uberlândia (MG), comerciante de produtos para higiene.

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