sexta-feira, 15 de julho de 2016

BABENCO SE FOI MAS FICARAM OS SEUS FILMES E SEU AMOR PELO ESTILO DE VIVER MAIS BRASILEIRO E PELAS LUTAS DOS MAIS FRACOS

Cineastas, roteiristas, atores, atrizes, amantes do cinema em todo o mundo lamentaram a morte de Hector Babenco que deixou dois projetos e cinco filmes de grande valor: o editor do nosso blog teve duas vivências culturais positivas com ele e com Max Lincker em São Paulo nos anos 80 e aqui está um texto de Padinha sobre estes dois momentos, confira a seguir


Cineasta argentino optou pelo Brasil e pela luta dos mais fracos


Galvez, O Imperador do Acre, baseado no livro de Márcio de Souza e Shirley, roteiro de Leopoldo Serran, sobre uma aventura entre um operário e um travesti, eram os dois novos projetos a serem filmados por Babenco, quem sabe, agora isso seja feito por algum herdeiro cultural dele. Hector Babenco tinha um talento natural  para o cinema, o teatro, a comunicação, tendo começado como fotógrafo de festas e restaurantes, ainda quando muito jovem, quando chegou da Argentina, onde foi aprendiz de alfaiate. Eu o conheci logo depois dele ter realizado Pixote, um dos filmes mais rebeldes e com maior emoção humana do Brasil. Com cerca de 30 anos, ele estava no Museu de Imagem e do Som (MIS) presidindo uma mesa de debates sobre os rumos do cinema brasileiro. Num dado momento levantei a mão e defendi a loucura criativa de Glauber Rocha, que acabava de ser criticada por um defensor de filmes mais do esquema americano ou hollywoodiano: "Glauber e o Cinema Novo com a sua loucura, como você ai disse, eles inovaram a linguagem do cinema e buscaram as raízes do nosso povo do sertão, isso ajudou a definir o Brasil, foi um oásis em meio a uma época ditatorial". Isso disparou um bateboca e eu defendi também o que então a imprensa chamava de Polo paulista de filmes, que haviam sido premiados pela Embrafilme mas aguardavam liberação da verba conquistada em concurso para serem realizados. Um dos filmes era Fim de Semana no Terceiro Mundo, que eu havia escrito e seria o meu primeiro longametragem como diretor. Era mais um trabalho meu que estava tendo problemas com a Censura. Em meio a uma pequena confusão, Hector Babenco sugeriu que eu escrevesse o que havia colocado: "Vou colocar isso como um conteúdo deste debate para apoiar essa geração de cineastas". Babenco sugeriu e eu escrevi, expliquei no texto escrito à mão ali mesmo, no ato, que três curtas metragens e alguns programas de TV que eu havia criado tinham sido censurados. Mais tarde, ele me entregou um cartão de contato e me abriu uma porta: "Procure o meu produtor de Pixote, o Max Lincker, vai fazer uma visita ao escritório dele". Mais uma vez obedeci Hector Babenco e fui logo depois ao encontro de Maximilian Lincker, ex-cantor na Áustria e empresário de exportação em São Paulo, que havia sido um dos produtores de Pixote, A Lei do Mais Fraco, sucesso de público e de crítica em vários países. O velho Max e seus filhos tentaram me ajudar na liberação da verba e da censura do Fim de Semana no Terceiro Mundo, mas nem com o apoio de Celso Amorim, que viria a ser depois Ministro das Relações Exteriores e então dirigia a Embrafilme, isso foi possível: a liberação dependia de Paulo Maluf, prefeito de São Paulo, que me considerava subversivo e inimigo político..Nesse meio tempo virei amigo do Max Lincker e da sua família, ele me mostrou o lado judaico da vida, me contou a perseguição sofrida durante o Nazismo, quando veio como imigrante pro Brasil. Mais tarde, Max Lincker me garantiu a sobrevivência enquanto eu escrevia o roteiro duma série de TV 1999, ficção e documentário sobre o tema, em vez de fim do mundo vamos criar nosso futuro. Com seus contatos, Max conseguiu que os produtores de Easy Rider nos Estados Unidos se interessassem por uma coprodução com a gente. Até começamos a fazer filmagens e gravações no Canal Independente em São Paulo, inicialmente gravando clips com talentos como Beto Eliezer, Estevão Maya que fazia um som afro e um garoto músico que viera do Japão, além de algumas cenas de ficção, tendo como diretor de fotografia Getúlio Alves, que vinha da Blimp Filmes e do Globo Repórter, assim como eu. Mas depois houve uns problemas entre os parceiros americanos e brasileiros na questão financeira e o projeto acabou acabando. Depois desta situação, resolvi deixar quieto e voltei para Franca, minha cidade natal, onde passei a me dedicar mais a jornalismo e ecologia. Na prática, não consegui superar as barreiras em especial da Censura, mas mudei o foco, virei vegetariano e passei a buscar a liberdade da natureza. Sou grato contudo a Hector Babenco, que solidário tentou me ajudar com sinceridade. Por causa dele também, respeito demais os argentinos, muitos são humanitários e bem informados.  Porém, agora é hora de falar do talento e do know-how de cinema do cineasta que atacado por uma parada cardíaca se mandou pro lado de lá da vida nesta semana. Viverá para sempre nas imagens que criou com emoção e sutil inteligência, com visão crítica da realidade da morte e da vida. (Antônio de Pádua Silva Padinha)



El Pais:  filmes de Babenco são jóias preciosas do cinema







Hector Babenco, em uma foto de Cláudio Onorati (EFE)


Lado a lado com sua 1ª mulher e amigo ator nos bastidores do teatro

Agora recente com Bárbara Paz uma das últimas fotos de Babenco

Babenco e Max Lincker tentaram uma coprodução com equipe de Easy Rider

Sônia Braga num flash que marcou O Beijo da Mulher Aranha

Todos os perseguidos e rebeldes se identificaram com o garoto Pixote


Fontes: www.elpais.com
             www.folhaverdenews.com


7 comentários:

  1. Aguarde que neste sábado estaremos editando aqui mais informações sobre Hector Babenco e seus filmes, bem como, postando mensagens nesta seção de comentários do nosso blog, aguarde e confira.

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  2. Participe vc tb, você pode colocar direto aqui nesta seção o seu comentário ou então, se preferir, envie a sua mensagem para o e-mail da redação do nosso blog de ecologia e de cidadania, via o nosso webendereço navepad@netsite.com.br

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  3. Outra opção ainda para vc participar: envie a sua msm diretamente pro e-mail do nosso editor de conteúdo do blog padinhafranca@gmail.com

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  4. "Que bom que alguém se lembrou da importância de Max Lincker nos trabalhos de Babenco, também aqui eu conheci um outro lado deste grande cineasta da Argentina, do Brasil, do mundo": comentário que foi postado por Irineu Mendonça, de São Paulo, que atua no mercado publicitário.

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  5. "Um dos melhores retratos de Babenco que era um bom retratista, no sentido de contar estórias e retratar pessoas ou acontecimentos, um grande cineasta sem dúvida": comentário de Sidney Santos, empresário de Comunicação no Rio de janeiro. Ele informa que viu o texto deste blog ao pesquisar sobre Héctor Babenco no Google.

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  6. "Infelizmente, temos perdido muita gente da área cultural como agora Babenco e Sábato Magaldi, entre outros, isso prejudica a sequência da evolução do próprio país também": comentário de Geraldo Silva Júnior, de Curitiba (Paraná) que nos manda uma relação de produtores culturais de várias áreas e regiões que se foram neste ano. A gente agradece a atenção do Geraldo, jovem autor de teatro.

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  7. "babenco quebrou as barreiras entre Argentina e Brasil, invadiu até os Estados Unidos com o seu talento, seu espírito crítico, seu senso de solidariedade, só foi barrado pela morte, precoce, porque seus novos projetos poderiam ir mais além ainda": comentário de Fernanda paes Ferreira, de São José dos Campos (SP), que faz teatro em São Paulo e chegou a fazer uma leitura dramática de texto de Brecht com Babenco no TBC.

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