quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

NA FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESTUDANTE DE MEDICINA AFRICANO SE SURPREENDE COM O RACISMO NO BRASIL

Vindo do Togo (África) para estudar na UFRJ e no Brasil Fleury Johnson critica esta doença social e se manifesta, pede "justiça e poder ao povo preto": confira aqui agora o depoimento deste jovem


O estudante de Medicina Fleury Johnson veio dum país africano estudar no Brasil e no Rio de Janeiro, também por amar nosso povo e admirar nossa natureza. Desde de 2011 está indo muito bem numa das melhores faculdades brasileiras, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a famosa UFRJ também pelos seus pesquisadores e suas pesquisas de ponta. Porém, ele se surpreendeu negativamente com a xenofobia de alguns e o racismo de muitos, dentro e fora do campus universitário. Segundo o site Hypeness, a sua visão crítica da realidade brasileira é, numa palavra, impactante. E aqui no blog da ecologia e da cidadania Folha Verde News a gente vai publicar praticamente na íntegra o depoimento deste jovem, cidadão da África e do mundo. A seguir, com a palavra, Fleury Johnson. 


Fleury com um paciente
Johnson em residência médica atendendo um paciente negro no Rio

“Sou Fleury, estudante de medicina na UFRJ. Cheguei no Brasil há 6 anos, através de um programa de convênio entre o governo brasileiro com o Togo, meu país. Fora do Brasil, temos a visão que aqui é um lugar onde os negros têm acesso a todos os patamares. Chegando aqui, a realidade é completamente outra. Eu me lembro que quando eu dizia que eu sou do Togo, as pessoas me perguntavam: o que é isso? Outros ainda perguntavam: fica em qual região da Angola? É o Congo? Eu dizia “não, é o Togo”, e tem infelizes que respondiam: "É tudo a mesma coisa”. A minha resposta era: se assim for, então Argentina e Brasil "é tudo a mesma coisa".  O que mais me surpreendeu foi o dia que eu estava no ponto de ônibus na Ilha do Fundão e parou um carro na minha frente, os alunos que estavam dentro e vestiam camisas da “engenharia UFRJ”, gritaram para mim: volta para o seu país, angolano. Eu fiquei triste mas não por mim, por eles. Fiquei me perguntando como alguém consegue passar para o curso de engenharia e não sabe que ser preto com cara de estrangeiro, não quer dizer ser angolano ou ser pior do que ninguém. Eu fui entender esse pensamento defeituoso um tempo depois: a imagem de que a África é um país, não um continente que tem 54 países. Outra coisa a mencionar é a história da África aqui vendida com uma imagem de pobreza e de miséria".


Dá para contar os negros na faculdade de Medicina 


"Sou Fleury, estudante de medicina na UFRJ, negro e triste com o Brasil"


"Em 2011 (ano em que eu fazia curso de português para estrangeiros), eu disse para um amigo que iria começar a faculdade de Medicina em 2012, ele me disse: você sabe que você seria praticamente o único negro da sua sala? Eu disse: como assim? Realmente em 2012, quando entrei na faculdade, dava para contar os negros na faculdade. Confesso que antes de entrar, eu era contra o sistema de cota, mas devido à realidade vivenciada dentro da faculdade de Medicina,  isso mudou. Um certo dia no ano de 2012, eu estava sentado em um banco no campo de Santana, eu vi uma mãe dando banho no seu filho nas lagoazinhas do parque, e depois lhe colocou o uniforme da escola. É óbvio que essa criança não tem as mesmas oportunidades que outras crianças que estudam em um colégio particular, volta para casa no almoço, descansa, come e volta para a escola. É muito importante o sistema de cota numa perspectiva de mudar a história, a situação financeira de muitos negros, indigenas atrapalha. Porém, vemos que o sistema sofre muitas fraudes. A justificativa dos fraudadores do sistema de cota é a “autodeclaração”. Tem que ficar escuro para todo mundo que não é negro quem quer mas realmente quem tem o fenótipo. Umas das justificativas, por exemplo, é “Ah, eu sou branco mas meu tataravô é negro”. Não importa! Ter sangue negro na sua família não quer dizer que você com todo o fenótipo caucasiano seja negro. É importante ressaltar que tendo uma gota de sangue preto na árvore genealógica não faz a pessoa ser negro, senão seria como se a gente partisse da lógica que o sangue negro fosse sujo (referência a” one-drop role” regra de uma gota” lei racista utilizada ainda hoje por alguns americanos). Eu sou um exemplo, meu sobrenome é Johnson, porque sou descendente distante de um inglês branco, e isso faz de mim um branco?! Repense. Quem sofre racismo nas ruas é o negro, quem sempre é o primeiro suspeito de roubo é o negro, não é você que se autodeclarou sem ter nem o fenótipo da raça negra e que acha o nosso lábio grosso feio". 


Um dia eu fui procurar estágio em um hospital 

– “Sou estudante de medicina e marquei para conversar com o Dr fulano hoje por causa do estágio”. A mulher branca que me atendeu me perguntou: "Você quer estágio para aluno de Fisioterapia?"... Eu disse não, estágio para aluno de Medicina e ela repetiu de novo: estágio para alunos de Fisioterapia?...Sem comentários...Outra caso que aconteceu é que no sexto período da faculdade, eu examinava uma paciente todos os dias, pois era responsável junto com outro colega pelo leito em que ela estava. E sempre que eu chegava para examinar, eram vários xingamentos e ela me pedia para chamar o Médico. Eu achava que era porque eu sou estudante, até que, um dia, eu cheguei quando ela estava sendo examinada por uma enfermeira branca, e ela disse: o enfermeiro chegou. A enfermeira lhe disse que eu que era o Médico. Médico, embora negro...Exceção. Esses são alguns casos entres tantos outros que aconteceram comigo e com outros estudantes de Medicina negros, como o caso da Suzane Pereira da Silva, estudante de Medicina da Universidade Santa Marcelina em São Paulo. A Suzane, ao postar uma foto segurando um cartaz escrito “A casa grande surta quando a senzala vira médica”, foi agredida por uma outra médica que disse: você acha que vai entrar no hospital com esse cabelo?...


Togo1
"Suzane era medida pelo seu cabelo e não por sua inteligência"...


Descobri que o padrão de beleza para médicos era ser loiro de olhos azuis 


"Em 2012 uma amiga me perguntou se eu sabia qual o estado padrão de beleza no Brasil. Eu pensei: a Bahia tem mais negros, logicamente é a Bahia. Ela disse “não”, e então chutei o Rio de Janeiro, pois após a Bahia é o estado com maior número de negros. Ela respondeu “não. É o Rio Grande do Sul e Florianópolis, Santa Catarina, e ela emendou ainda: "Em que mundo você vive, não sabia disso?"...As crianças nas escolas sofrem agressões psicológicas ou bullying do tipo: Seu cabelo é ruim! (Outra coisa que eu me espantei quando eu ouvi; o cabelo é ruim porque é crespo?). Devemos entender que esse padrão de beleza é só europeu e foi imposto para a maioria do países do mundo. E não é nada universal porque eu já visitei 7 países da África e tenho certeza que na África negra, o padrão de beleza é outro". 


 É bonito também ter cabelo crespo, enrolado, lábios e nariz grande


"Na África valorizamos a diversidade e cada povo tem a sua beleza. Assim como negro é bonito e o branco também. Ano passado a estudante de Medicina da UERJ Mirna Moreira e outras pretas foram agredidas em uma rede social quando participaram de um concurso de beleza por algumas pessoas que se acham superiores ou melhores. Não podemos dizer que o racismo não existe  ou que é coisa da cabeça do negro". 


Togo2


"Os relacionamentos afroafetivos são uma forma de resistência, de luta porque desafia esse padrão de beleza estabelecido, pelo fato dos negros se relacionarem entre si. Um negro e uma negra com ensino superior se casando e construindo uma família, dariam oportunidade aos filhos de ingressar à universidade também. Isso aos poucos começaria a mudar a imagem da sociedade brasileira. Isso é importante para que o policial ao ver um preto não pense logo que é um bandido. Fui parado num dia frio às 19h. O policial me disse que me parou porque ele tem implicância com o tipo de casaco que eu estava usando, uma falta de respeito. Duvido que se eu fosse branco e loiro, ele teria me parado porque tem implicância com meu casaco. Aqui em casa meus amigos (todos pretos) falaram para a gente ir até para o shopping arrumado. A primeira vez que fui desarrumado, uma mulher que estava na minha frente atravessou a rua rapidamente. Depois que ela percebeu que entrei no mercado, ela também entrou e foi puxar assunto comigo porque percebeu que eu estava indo só comprar. Ela percebeu então pelo meu sotaque que eu sou estrangeiro e se animou em conversar comigo. Imagina o que passa o negro pobre da favela em qualquer lugar da cidade que é ou deveria ser dele também?"...


Nós do continente africano não devemos achar que a luta pela igualdade racial é só dos negros brasileiros, porque quando estamos calados, andando na rua, sofremos preconceito até abrir a boca e falar com sotaque e verem que somos estrangeiros


"Um canal de televisão disse que a nova série que está passando no seu canal que tem como protagonistas um casal negro tendo como objetivo de mostrar aos telespectadores pessoas negras, normais, poderosas. Na série o casal canta, nada novo debaixo do Sol. Todos nós sabemos que a música e futebol sempre foram um meio de ascendência do negro no Brasil. Por que não se inspirar na nova onda? Novos médicos e engenheiros pretos? Não seria mais inspirador? Não faria sonhar aquele jovem negro que sonha em ser médico, mas acha que não pode porque nunca viu um médico negro? Não faria refletir aquela mulher que me disse na academia que eu não tenho cara de médico mas de pagodeiro?...É claro que o Brasil tem mais infraestrutura que o meu país até porque é a 7ª economia do mundo, mas eu não quero ficar  aqui onde o cabelo dos meus filhos seria motivo de piada na sala de aula (expor a criança à agressões psicológicas), não quero viver num país onde meus filhos seriam considerados como potenciais bandidos, onde quando eu estiver dentro do carro, comprado com meu trabalho, posso ser parado, com o policial achando que eu roubei o carro, só porque são negão. Enfim, amigos e amigas, poder ao povo preto, é a minha mensagem para mudar essa realidade". (Fleury Johnson). 


Fleury, aqui uma fotoarte sobre o debate que você levanta


Fontes: www.hypeness.com.br
             www.folhaverdenews.com 

8 comentários:

  1. Depois mais tarde por aqui nesta seção de comentários do nosso blog de ecologia e de cidadania, mais informações e mensagens sobre esta questão do racismo ou do bullying contra os nrgos no Brasil, onde 40% da população é desta raça...

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  2. O depoimento de Fleury Johnson está rodando o mundo através da web, inicialmente, no meio universitário, depois, com a repercussão, o seu depoimento virou ícone desta luta social.

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  3. Você pode colocar aqui nesta seção o seu comentário e se preferir, pode enviá-lo por e-mail para a redação do blog navepad@netsite.com.br

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  4. Você pode também, caso prefira, contatar o editor de conteúdo deste blog, enviando mensagem, opinião, foto, alguma informação ou até sugerindo pautas para a gente, mande para padinhafranca603@gmail.com

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  5. "Muito interessante o depoimento deste jovem do Togo porque mostra de forma imparcial a realidade que o negro sofre no Brasil, o bullying racial é o mais deprimente para o ser humano": comentário de José Dantas, o Negão, de Minas Gerais (BH) estudante de Jornalismo na PUC.

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  6. "Um absurdo, no Brasil, onde pelo menos metade da população é negra ou mestiça haver esse tipo de preconceito": comentário de Cleuza Marina, de São Paulo (SP), atriz de teatro.

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  7. "Creio que o racismo tem também uma causa econômica, quando o negro é rico as pessoas em geral não fazem bullying": comentário de Gaspar Santos, de Cuiabá (Mato Grosso), técnico de Informática.

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  8. "O ódio racial é abominável, primnitivo demais diante da tecnologia e do avanço cultural de hpje, apesar de tantos problemas: mas, tragicamente, o racismo, não só no Brasil contra negros que são vitais na formação do nosso povo, como nos Estados Unidos, com Trump repetindo os erros de Hitler (contra judeus), agora espalhando ódio aos muçulmanos": comentário de Rafael Moreira, de São Paulo (SP), sociólogo.

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