segunda-feira, 29 de maio de 2017

NEM MESMO PRENDER TODO MUNDO ACABA COM A CORRUPÇÃO: CIENTISTA POLÍTICO DIZ QUE BRASIL PRECISA CRIAR UMA NOVA ESTRUTURA

Bruno Pinheiro Wanderley Reis é professor na UFMG e pesquisador do estudo Dinheiro e Política, A Influência do Poder Econômico no Congresso Nacional, no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): ele foi ouvido pela BBC e opina como o país pode terminar com a corrupção que já está institucionalizada atualmente na vida pública brasileira


Bruno Pinheiro Wanderley Reis é economista e cientista político

Renata Mendonça entrevistou o pesquisador Bruno Pinheiro na BBC e a gente aqui no blog da ecologia e da cidadania faz um resumo de seus argumentos a que ele chegou após um estudo da realidade do Brasil a partir da relação entre o dinheiro e a política ou da influência que o poder econômico vem tendo em todos estes anos na eleição de deputados e de senadores ou de prefeitos, governadores e presidentes. O clima de revolta com os políticos se acirrou ainda mais no país após a divulgação das delações da operação Lava Jato  e nas  redes sociais têm sido comuns manifestações de revolta que vão desde "prendam todos os corruptos" e até a negação quase total da política tipo "ninguém presta". Para o economista e cientista político Bruno Pinheiro Wanderley Reis, as duas lógicas são perigosas do ponto de vista que nenhuma delas resolverá a crise política que assola o a política brasileira porque "prender corruptos não significa extinguir a corrupção". Ele argumenta que é ingenuidade até também pensar que a Lava Jato vai extinguir o processo de corrupção. Isso virá pelas conclusões do seu estudo com uma nova estrutura do estado no Brasil em que combater corrupção e corruptos seja uma tarefa permanente e ela passe a ser "fora do padrão" porque hoje no atual sistema este comportamento é tido como "normal" no setor e não um desvio. Só uma reforma estrutural do sistema político pode mudar e avançar esta situação, o economista Bruno Pinheiro diz em síntese que dentro do atual sistema, os políticos são corruptos por lei, fazem corrupção "normalmente". No Brasil, o dispositivo específico, que só incide aqui, é que o teto de doação de campanha tem que ser proporcional ao do doador. Até 2014 (quando doações de empresas eram permitidas), era no máximo 10% do rendimento da pessoa ou 2% do faturamento bruto da empresa. Qual é a lógica que isso cria? O candidato só ia pedir dinheiro às empresas que mais faturam, às pessoas mais ricas. Aí entram bancos, mineradoras, empreiteiras. Aqui a gente produz uma competição de centenas de candidaturas individuais disputando dezenas de cadeiras em distritos com milhões de eleitores. E isso é muito difícil de fiscalizar, os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) são admiráveis, mas é impossível governar um sistema em que concorrem mais de mil candidatos na mesma circunscrição. Então fica claro que você vai ter um jogo. Porque só pouquíssimas empresas podiam doar bilhões dentro dessa regra. Obviamente isso vicia o sistema político e o jogo eleitoral. Vai arrecadar mais o candidato que tiver boas relações e bom fluxo de recursos com as grandes empresas, bancos, empreiteiras, mineradoras. É uma anomalia, essa regra só existe aqui no Brasil".




Na prática, os lobbies é que legislam e governam no Brasil hoje


"Enquanto no resto do mundo você tem a corrupção como exceção, por aqui ela é uma regra", comenta por sua vez o ecologista Antônio de Pádua Silva Padinha que edita este blog Folha Verde News, ligado ao movimento científico, ambientalista e de cidadania, para buscar uma síntese do estudo do economista Bruno Pinheiro Wanderley Reis. Na sequência da sua entrevista, ele afirma que "enquanto no resto do mundo você tem uma dezena de chapas disputando favores e doações de milhares de doadores, aqui no Brasil a gente faz uma competição em que milhares de candidatos disputam os favores financeiros de uma dúzia de doadores potenciais. Você vai ter uma elite parlamentar, tanto de vereadores quanto de deputados, extremamente dependente de poucos grandes financiadores. Isso é um sistema que dá um poder sem igual a financiadores, a agentes privados que legitimamente têm seus interesses políticos e as suas prioridades próprias. Só que nenhum país deixa seu representante político tão vulnerável a seu financiador. São as grandes empresas, as doadoras, quem dá as cartas nesse sistema brasileiro. O que significa que é um sistema propenso a captura do representante pelo financiador, portanto é um sistema que a gente pode querer chamar de corrupto por definição. Corrupto na lei, a lei o torna corrupto". Numa realidade em que na prática os lobbies é que governam, ele chega a dizer na BBC que as delações premiadas por exemplo são autodestrutivas no sentido de que estão apenas "enxugando gelo", sendo uma invenção da máfia. Bruno Pinheiro neste ponto conclui que em vez da gente usar um sistema de controle melhor, estamos dando voltas, sem canalizar as investigações para captar os problemas e solucionar nas suas causas, precisamos é mudar a legislação do sistema eleitoral e a própria estrutura da vida pública, que ele indica como o caminho de mudança e de avanço da atual realidade. Em suma, o economista e cientista político da UFMG parece sinalizar uma nova Constituinte como a saída para o impasse do país e como alternativa para um sistema que livre o Brasil da corrupção. E então aqui a gente diz Constituinte Já. Mais outros trechos da entrevista e dos estudos feitos no Ipea por Bruno Pinheiro Wanderley Reis estão na nossa seção de comentários para você conferir, OK? 


Dentro dessa estrutura praticamente ninguém escapa no atual Congresso



Fontes: BBC - Ipea
             www.folhaverdenews.com

9 comentários:

  1. Sistema político no Brasil: "Você vai ter uma elite parlamentar, tanto de vereadores quanto de deputados, extremamente dependente de poucos grandes financiadores. Isso é um sistema que dá um poder sem igual a financiadores, a agentes privados que legitimamente têm seus interesses políticos e as suas prioridades próprias. Só que nenhum país deixa seu representante político tão vulnerável a seu financiador. São as grandes empresas, as doadoras, quem dá as cartas nesse sistema": comentário do professor da UFMG Bruno Pinheiro Wanderley Reis à BBC.

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  2. "Agora, o que você tem é uma clara deterioração institucional, está um salve-se quem puder. A capacidade da Lava Jato de investigar pessoas tão poderosas deriva da estabilidade relativa do sistema político de 1988 para cá. Essa é a parte mais triste. Esse sistema que está aí agora é o sistema menos malsucedido que esse país já foi capaz de por em pé em toda a sua história. A ideia de que o próximo vai ser melhor é só esperança. Nós estamos em uma situação em que todo mundo que é preso a gente já começa a pensar, qual será a delação? É uma bola de neve. Isso não vai acabar. Quando vai acabar? Quando o país todo estiver na cadeia, aí você joga a chave fora? Quando vier um "salvador da pátria"? Nesse momento, ninguém consegue aprovar no Congresso medidas que limitem a atuação das investigações, mas vai acontecer. No momento em que o sistema se reestabilizar, cedo ou tarde isso acontece, algum salvador da pátria que vai ser eleito vai ter que voltar a ter o dispositivo de poder. Para fazê-lo de maneira confiável, crível pelos atores, vai precisar pôr limite na atuação do Judiciário. E é aí que a ambição de limpeza mostra seu lado destrutivo": comentário também do cientista político e economista Bruno Pinheiro em seu estudo pelo Ipea.


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  3. "Você tem que combater corrupção, sim, essa é uma tarefa permanente do Estado. Mas é mais ou menos como funciona em uma empresa de computação que cria antivírus. Ela não vai conseguir extinguir os vírus, aboli-los. Ela vai fazer antivírus o tempo todo. Isso não tem um ponto de chegada. Para isso, você tem que ir aperfeiçoando por rotinas burocráticas, administrativas, etc. a capacidade do sistema de controlar a corrupção. A gente vinha fazendo isso. Nossa capacidade de combater a corrupção hoje é muito maior do que há 30 anos. Agora, do jeito que vai, vai piorar. Porque o sistema está sendo desarticulado na sua teia de interesses, na sua capacidade de autocontrole. A gente está num processo de autodestruição": mais um trecho da entrevista na BBC de Bruno Pinheiro.

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  6. "Essa é uma matéria superoportuna e a grande mídia deveria discutir a realidade política do país nesse nível, em busca de mudanças de verdade": comentário de Alice Neves, de Curitiba, Paraná, que nos envia uma série de charges que ela vem colecionando para fazer uma mostra cultural.

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  7. "Esta deficiência no sistema político pode ter as causas indicadas no estudo deste economista da UFMG sim com certeza, mas o que me preocupa mais, são os efeitos deste, digamos, desgoverno, nos problemas da população, como violência e falta de condição humana de vida da maioria": comentário de Jaime Ribeiro, que diz não ser de esquerda nem de direta, se definindo assim: "Só uma política humanitária se encaixa com o Brasil hoje", diz este consultor empresarial de informática, que vive em São Paulo.

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  8. "Este videoclip expressa exatamente o que o povo nas ruas fala sobre os furos do sistema político atual no Brasil": comentário de Gabriela Neres, de São Paulo, executiva.

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  9. "Não é só no Brasil, em países como Portugal, Itália, Espanha, Grécia, Irlanda, entre outros hoje, a pobreza de parte da população acaba levando a casos de corrupção": comentário de Manuel Bianchi, geólogo italiano, que atua hoje em Franca (SP).

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