quarta-feira, 5 de julho de 2017

CONVERSA PÚBLICA ENTRE JORNALISTAS DO ESTADÃO E DA FOLHA DE SÃO PAULO SOBRE A COBERTURA JORNALÍSTICA NO BRASIL AGORA

Dificuldades, erros, limites e avanços na cobertura política nesses tempos de crise sob o ponto de vista de jornalistas que estão no dia a dia fazendo este trabalho de valor para a informação, para a cidadania e para toda a população

 
Pela importância do tema, abrimos o nosso webespaço aqui no blog da ecologia e da cidadania Folha Verde News para a entrevista com jornalistas do Estadão e Folha de São Paulo feita pela Agência Pública de reportagem e de jornalismo investigativo: a conversa analisa a cobertura em meio ao fluxo de informações da Lava Jato e também o impacto das denúncias contra o presidente Michel Temer, a gente aqui posta alguns dos principais trechos do diálogo aberto. Foi a repórter do BuzzFeed Brasil Tatiana Farah quem entrevistou ao vivo Bernardo Mello Franco, colunista da Folha de São Paulo e o diretor da sucursal do Estadão em Brasília, Marcelo Beraba, em pauta, o papel da imprensa no atual cenário político. Confira a conversa pública de interesse geral para todo no Brasil hoje.
 
 
Tatiana Farah, Mello Franco e Beraba debatem essa pauta quente para a cidadania
 
Os três explicam de cara que a Lava Jato tem sido a pauta da cobertura política nos últimos três anos. A conversa foi realizada na Casa Pública no último sábado à tarde, no Rio de Janeiro, ocorreu dois dias antes de Rodrigo Janot, o procurador-geral da República, apresentar a primeira acusação contra Michel Temer. O peemedebista é acusado de corrupção passiva, tornando-se o primeiro Presidente brasileiro no exercício do mandato a ser denunciado por um crime comum. Só o peso desta denúncia e desta situação dimensiona o valor e o tom do diálogo entre os três jornalistas.
 
 
O Brasil precisa ser reconstruído por cada um de nós
 
 
 
Tatiana Farah – No que vocês pensam quando acordam? O que vão ver primeiro? “Vou ver o Lula primeiro, vou ver o Temer primeiro, vou ver o Joesley…”
Marcelo Beraba – Não, primeiro vou ver o WhatsApp, que tem 200 coisas às 6 horas da manhã; se começou ou não uma operação da PF, onde… E, logo em seguida, se o Temer já voltou ou vai para São Paulo. Enfim, 6 horas da manhã a gente já está ligado. É o WhatsApp, é e-mail, é interminável.
Bernardo Mello Franco – A Polícia Federal aumentou a jornada de trabalho dos jornalistas, né? A primeira coisa é ver se aconteceu alguma operação, porque a dinâmica da política brasileira nos últimos três anos está subordinada à dinâmica da Lava Jato. Eu uso muito o Twitter, que é a rede que mais rápido dá o flash, a notícia seca, para depois buscar as fontes de informação.
Tatiana Farah – Beraba, você tem 46 anos de jornalismo. Começou a fazer cobertura ainda no regime militar. Essa é a crise política mais difícil que o país está enfrentando ou é porque estamos passando por ela?
Marcelo Beraba – Durante a década de 1970, eu era repórter de O Globo, mas havia uma restrição grande de trabalho. A dedicação era muito maior em relação à cobertura da própria cidade e tinha pouca cobertura da política. Com a redemocratização houve crises muito fortes: a instabilidade do período Sarney, o impeachment do Collor, e depois a gente viveu vários períodos relativos à corrupção. Hoje, com essa junção de tantos elementos, não lembro nada igual: uma crise econômica, um governo debilitado, enfraquecido, o mundo político sob suspeição, uma operação do tamanho da Lava Jato… Por isso, tenho impressão de ser a pior crise que a gente já viveu.
Tatiana Farah – Bernardo, por outro lado, para você deve ser um prato cheio, porque nunca fica sem pauta para a sua coluna.
Bernardo Mello Franco – É verdade. Desde o começo me impus a tarefa de fazer uma coluna numa temperatura que fosse mais do noticiário do que uma coluna de opinião. Na página em que escrevo, tem a coluna do [Carlos Heitor] Cony, do Ruy Castro, que são grandes escritores que podem fazer um texto genial sobre algo que aconteceu com eles no café da manhã, sobre uma memória de um grande artista da bossa nova etc.
Procurei, desde o começo, fazer uma coisa que estivesse conectada com o assunto do dia. E acabei sendo ajudado de alguma forma pelo volume do noticiário. E agora está acontecendo um fenômeno contrário: várias vezes começo com uma coluna na cabeça e essa coluna cai porque ou ela deixa de ser relevante, ou se torna uma notícia velha ou todo mundo já viu. O desafio agora é outro. É tentar buscar, na medida do possível, um ponto de vista original ou diferente, ou saindo por uma lateral, sobre aquele fato que já está sendo revisado ao longo do dia por várias mídias ao mesmo tempo.
 
 
Um dos momentos mais dramáticos e trágicos da história viva do país
 
 
Tatiana Farah – O presidente Temer deve ser denunciado. O que vai acontecer? [A denúncia ocorreu dois dias depois, na segunda-feira, 26 de junho]
Marcelo Beraba – A minha impressão é que vai ser um impacto grande a denúncia. Primeiro, é inédito. Agora, as consequências não serão imediatas. O presidente não vai renunciar, a base dele vai tentar reagir, uma parte da base vai tentar reagir, uma parte da base vai tentar se afastar. O PSDB, mais uma vez, vai dizer que é horrível; aí, no dia seguinte, uma parte vai dizer que é mais ou menos, aí depois vai ficar. O PT vai ficar com: “Ah, é um absurdo!”, mas ao mesmo tempo: “Bom, isso aí pode sobrar pra nós também. O que vai acontecer?”. Então está todo mundo meio que girando em torno disso. A gente vai ainda sofrer um tempo com isso.
Bernardo Mello Franco – É, acho que não vai ter o fator surpresa que as delações, por exemplo, tiveram. Mas acho que também a gente não pode perder a dimensão da importância dos fatos. Como disse o Beraba, isso é uma coisa que nunca ocorreu no Brasil, você ter um presidente no cargo sendo denunciado criminalmente pelo Ministério Público por acusação de prática de crime de corrupção. O ex-presidente Fernando Henrique falou sobre isso e frisou esse ponto, que é uma coisa gravíssima e sem precedentes na história. Então, acho que o nosso desafio também no jornalismo, quando a gente está nesse mar de escândalos, vendo cada vez os padrões da gravidade das coisas escalar e a gente não começar a se acostumar com isso. Agora, não quer dizer que vai ser um fato determinante para a queda desse governo, porque tem alguns fatores que estão mantendo o Temer de pé, contra todos os prognósticos iniciais.  No dia da divulgação dessa fita da JBS, estava todo mundo falando abertamente sobre a substituição do presidente. Era uma coisa dada como quase certa.
Marcelo Beraba – Ele pensou nisso.
Bernardo Mello Franco – Ele pensou. Eu estava nesse dia no Palácio do Planalto, aguardando aquele pronunciamento dele, que tinha sido marcado para o começo da tarde, depois foi para as 16h. E o tempo todo a notícia era se ele renunciava ou não, a apuração era essa. Na véspera, ocorreu um encontro, na casa do deputado Rodrigo Maia, com quatro ministros do governo falando abertamente sobre substituição do presidente. Então, é claro, se essa era a conversa de um mês atrás e agora a gente já está discutindo quanto tempo dura e o que vai acontecer, demonstra que o presidente, em alguma medida, conseguiu recompor forças mínimas para permanecer de pé. Acho que tem alguns fatores que o ajudam nisso. O primeiro é a falta da rua. A rua impulsionou, teve um peso enorme na queda da Dilma Rousseff. Manifestações sem precedentes de tamanho, maiores que as manifestações pelas diretas etc. Isso não está ocorrendo no caso do Temer. Uma segunda coisa importante para mim é o fato de que esse é um governo que foi constituído pelo Congresso. Ele só existe porque o Congresso, por dois terços, nas duas casas, botou o Temer no poder. Então, ele tem uma base mais sólida ou ainda mais coesa do que tinha a Dilma, que já iniciou o segundo governo numa situação minoritária no Congresso, sofrendo derrotas.
 
 
Movimento de cidadania voltará com tudo às ruas nesse momento?
 
 
Confira a seguir outros trechos da Conversa Pública na seção de comentários aqui no blog do movimento científico, ecológico e de cidadania para mais informações sobre esta pauta de grande importância no momento brasileiro atual. Acompanhe o debate você também, como uma forma da gente mudar e avançar este país, que ainda não é uma Nação de verdade.
 
 
 
 
 
 
Fontes: www.apublica.org
             www.folhaverdenews.com
 
 

7 comentários:

  1. "No caso também do Temer, da Dilma, você tinha um caminho claro do que aconteceria caso ela fosse removida. Ela tinha um vice e esse vice assumiria em qualquer hipótese. E agora o cenário é de incerteza. A Constituição aponta para a hipótese da eleição indireta; acho que ninguém quer uma eleição indireta no Brasil. Ninguém em sã consciência, a não ser os próprios parlamentares que vão votar indiretamente. Esse Congresso tão comprometido em escolher um próximo Presidente sem consultar o povo, mas é isso que está na Carta": comentário de Bernardo Mello Franco, da Folha de São Paulo em Brasília (DF).

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  2. "Se o Rodrigo Maia já tivesse sido aceito como sucessor na Presidência da República, é possível que o Temer já tivesse saído. Então, a divisão dos partidos, a falta de consenso entre eles em relação aos próximos passos e a um nome, mais o fato de que todos estão, sem exceção, envolvidos nas investigações, é o que criou uma paralisia que está beneficiando o Temer": comentário de Marcelo Beraba, do jornal O Estado de São Paulo (Estadão) em Brasília (DF).

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  3. "Quando houve a delação da JBS, houve uma clara contradição de linhas editoriais dos jornais com a Rede Globo. A partir daí, como é que, na visão de vocês, o bom jornalismo ficou comprometido ou não?": este questionamento de Tatiana Farah, repórter do BuzzFeed Brasil, pergunta aos dois jornalistas, deixamos aqui como um comentário e como uma questão para você que está acompanhando este debate responder...

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  4. Logo mais, outros trechos do debate, mais informações sobre esta pauta e você também pode colocar direto aqui nesta seção o seu comentário ou se preferir, envie a sua mensagem para o e-mail da redação do nosso blog navepad@netsite.com.br

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  5. Você também pode contatar o editor de conteúdo deste blog que abriu espaço para este debate da Agência Pública pelo valor do que está sendo discutido: mande sua informação, comentário, material como foto ou charge ou vídeo ou crítica ou sugestão de pauta padinhafranca603@gmail.com

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  6. "Realmente, me parece que o movimento de cidadania, os jovens em especial, precisam voltar às ruas, para agilizar as decisões em Brasília": comentário de Sebastião Carlos Almeida, de Campinas (SP), advogado e militante da OAB-SP.

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  7. "Superlegal o videoclip de Felipe Mendonça, contando em 5 minutos com flashes de imagens e com músicas a história da cidadania brasileira, tem a ver sim com o diálogo dos jornalistas nestes dias, porque ainda não existe uma realidade democrática de verdade no Brasil": comentário de José Evaldo de Morais, estudante de História na Unesp.

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