"Na cultura popular brasileira estamos mais para vaquejada do que rodeios americanos, somos mais vaqueiros e caipiras do que cowboys". (Um dos comentários ao final desta edição, confira mais informações e opiniões aqui no blog).

Bichos dóceis com o Sedém e outros estímulos pulam, ficam agressivos na violência

 

A questão é polêmica mas tanto nos Estados Unidos (onde nasceram os rodeios) como no Brasil vários estudos feitos por médicos e veterinários concluíram que na montarias de touros como agora na Festa do Peão em Barretos existe um grau de violência que não pode continuar sendo cometida, "os homens se divertem em cima do sofrimento dos animais", argumenta a Drª Irvênia Luiza de Santis Prada, da Faculdade de Medicina, Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo: ela fez um estudo que já é histórico no país e condenou a prática dos rodeios com o uso do Sedém e outros instrumentos que estimulam violentamente a agressividade do animal. Um outro lado foi dado também por outra médica perita no assunto, Drª Júlia Matera, presidente da Comissão de Ética da mesma Faculdade de Medicina da USP, sendo que em resumo, o laudo técnico afirma a potencialidade lesiva do Sedém, peiteiras, choques elétricos e mecânicos, esporas e outros estímulos que fazem o torro pular e ficar mais agressivo mas que produzem dor física e sofrimento mental nos animais, que têm capacidade neuropsíquica de avaliar as agressões que sofrem para a diversão nos rodeios. Os corcoveios dos animais exibidos em rodeios resultam da dor e tormento de que padecem, não só pelas esporas que lhes castigam o pescoço e baixo-ventre, mais ainda também pelo Sedém, artefato amarrado e retesado ao redor do corpo do animal, na região da virilha, tracionado ao máximo no momento em que o animal é solto na arena. No bovino, o sedém  passa sobre o pênis; no eqüino,   passa sobre a porção  mais anterior do prepúcio, onde se aloja o pênis do animal. Qualquer homem pode avaliar a dor e o sofrimento que levam à reação violenta, nem é preciso muitas considerações e detalhes. Nosso blog ligado ao movimento ecológico, científico e de cidadania, dentro da filosofia da não violência, não poderia se omitir diante destes fatos. A gente não é contra a Festa de Barretos, que tem grandes shows inclusive, mas não podemos aceitar crueldade contra os animais.


Os animais com certeza não são mais violentos do que os homens

Sedém, como a própria definição denuncia, “é um cilício de sedas ásperas e mortificadoras” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, p. 1561, Rio de Janeiro, editora  Nova Fronteira). E a mesma obra  define “cilício” como “tortura, martírio, aflição, tormento” (página 405).


Pesquisas e 18 laudos técnicos comprovaram dor e sofrimentos dos animais em rodeios

Conforme o laudo técnico da perita médica Irvênia Luíza de Santis Prada, Professora Titular Emérita da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia  da USP, doutora em anatomia animal e  especialista em neuroanatomia,  a superfície ventral do abdome,  por não se achar protegida por    estruturas ósseas, possui maior sensibilidade  do que outras regiões. Assim, toda a linha dorsal do corpo do animal tem o reforço da presença da coluna vertebral, o que não ocorre na  superfície ventral e mesmo  na lateral do abdome, onde se localiza a  região dos flancos, havendo, portanto, natural reação dos animais em tentar protegê-la. Por relacionar-se à presença ou  à proximidade de estruturas  relacionadas aos  mecanismos comportamentais de auto-preservação (sobrevivência) e de perpetuação da espécie (reprodução), estímulos na região da virilha sempre são agressivos à integridade do animal. Há que se considerar ainda que a virilha  é  farta em  algirreceptores , ou seja,  possui  estruturas nervosas específicas para a captação de estímulos que provocam dor. Por ser uma região de pele mais fina, com mais intensidade, podem ser vivenciadas as situações de estimulação de tais  receptores. É falsa, por conseguinte,  a impressão de que os animais exibidos em rodeios são  bravios e selvagens, uma vez que se trata de eqüinos e de bovinos absolutamente mansos, cujos saltos, coices e corcoveios decorrem da tentativa  desesperada  de se livrarem dos instrumentos que os fazem vivenciar  sofrimento físico e mental  infligido, sobretudo,  pelo uso do Sedém  e das esporas.


Minoria da mídia alerta sobre a violência contra as montarias nos rodeios


São semelhantes as conclusões de outros 18 laudos oficiais solicitados pelo Ministério Público e pelo Judiciário, dentre os quais se destacam os proferidos pelo Ibama,  pelo Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro e  pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. Em laudo pericial expedido pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli da Secretaria de Estado do Rio de Janeiro confirma que macio ou áspero, o sedém causa dor pela intensa constrição que exerce sobre área muito sensível.  Prova disso é o fato de  o animal corcovear  da mesma forma como o faz se submetido ao Sedém áspero. Vale dizer que as reações exibidas são idênticas porque as sensações experimentadas são as mesmas.


As esporras são golpeadas no pescoço e baixo ventre causando lesões e sofrimento
O sofrimento imposto aos animais não se restringe ao uso do sedém, pois os animais são muito sensíveis às esporas, normalmente   utilizadas em montarias e em provas hípicas de forma criteriosa e com muita moderação, fazendo o cavaleiro uso dos pés para tocar o animal, com pouca pressão e sem insistência alguma.  Nos rodeios, entretanto, o peão se vale das pernas para, com força e violência,  e de maneira incessante, castigar  o animal,  que não é tocado por esporas, e sim golpeado por elas, na região do pescoço e  do baixo-ventre. Pela forma brutal com que são utilizadas, as esporas provocam dor, sofrimento e lesões, ainda que as esporas não sejam pontiagudas.


Grandes rodeios são business e há outros interesses nos eventos

No estilo “cutiano” de montaria em cavalo,  executado apenas no Brasil, quanto mais esporeado o animal, maiores são as chances de notas altas.   Na montaria em cavalo Bareback, o peão  coloca-se em posição quase horizontal, devendo  posicionar as duas esporas no pescoço do cavalo. Na  Bull Riding, montaria em touro, o animal é esporeado, principalmente, na região do baixo-ventre. Já o estilo de montaria em cavalo  Saddle Bronc(sela americana)  exige que o peão puxe as esporas seguindo uma angulação que sai da paleta, passa pela barriga e chega até o final da sela, na região  traseira do cavalo. Perícias  atestam que esse instrumento provoca lesões sob a forma de cortes na região cutânea e,  não raro, até perfuração do globo ocular.peiteira para que reajam  da forma esperada.
O Peão de Barretos é festa de massa mas precisa ser revista em alguns pontos
Laçadas e  derrubadas, durante uma prova de perseguição seguida de derrubada na arena da 56º Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, um garrote  teve  de ser morto, em virtude da paralisia permanente provocada pelo peão que lhe quebrou a coluna vertebral. O fato, entretanto, não é incomum, uma vez que as provas de perseguição, seguidas de laçadas e derrubadas não só submetem os animais a sofrimento físico e psíquico, mas a risco de  lesões orgânicas,  rupturas musculares e paralisia  gerada por danos irreversíveis à coluna vertebral. Por se tratar de uma competição, cujo tempo é fator primordial, tudo é feito de maneira rápida, grosseira  e atabalhoada, aumentando a possibilidade de traumatismos que resultam em sequelas, tais como rompimento de órgãos internos, lesões nos membros ou nas costelas e na coluna vertebral, além de  deslocamento de vértebra e também do disco intervertebral, como enfatiza a Prof.ª Dr.ª Irvênia   Prada, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, orientadora da pós-graduação em Anatomia dos Animais. E como enfatizou o jurista J. Nascimento Franco, em seu parecer sobre os rodeios "inexiste base moral para equiparar o rodeio à tradição ou esporte porque flagela o animal, deforma o sentimento dos espectadores e instila no espírito das crianças e adolescentes o sadismo e a insensibilidade”.   
     
Os rodeios são importados dos States e não tem a ver com a cultura brasileira
                         

A ausência de identidade entre tais eventos e a cultura sertaneja brasileira é admitida até mesmo por aqueles que vivem da exploração destas festas de rodeio, como nos revelou em detalhes artigo publicado pela Revista Rodeo Life. “E até o cowboy, que sacoleja de rodeio em rodeio, pouco tem daquele boiadeiro dos anos 50. Alguns até que vem das fazendas, mas em sua maioria são moços do interior em busca de fama e grana, nos arriscados oito segundos de duração de cada prova. A legítima cultura popular de um país se inspira em suas próprias raízes e história e tem a autenticidade como marca. Não é o caso destas brutais festas de rodeio, prática importada dos Estados Unidos da América, onde também é repudiada por grande parte da população, algo que foi tema de matéria da NBC. "A exploração econômica da dor, sobre o lombo de animais fustigados, não pode ser concebida como esporte ou cultura. Na realidade é sim, crueldade", conclui o jurista Nascimento Franco, quando embasou uma proibição destes eventos, que continuam acontecendo não só em Barretos (SP), mas por todo o país, este problema merece debate e um projeto de regulamentação das festas rurais para evitar a disseminação da cultura da violência. 
Na realidade os touros são naturalmente mais dóceis e pacíficos que os homens

Fontes: www.uipa.org.br
             Jornal da USP
             www.folhaverdenews.com