quarta-feira, 13 de setembro de 2017

HÁ MUITOS ANOS GOVERNOS OU NEGOCIANTES DA AMÉRICA LATINA TÊM COMO REGRA DESPREZAR A ECOLOGIA E COMO PRÁTICA PERSEGUIR OS ECOLOGISTAS

Em um levantamento de mais de uma década a Global Witness coloca o Brasil como o mais perigoso para ambientalistas mas muitos ecologistas latinoamericanos têm sofrido ameaças segundo levantamento do site e jornal El Pais nos últimos 15 anos

Assassinato de ecologista Jairo Mora iniciou o levantamento

A jornalista do El Pais, Marina Gomez Robledo já havia alertado, Jairo Mora, que hoje teria 30 anos, vinha enfrentado há uns 4 anos  pressões e dificuldades na sua luta para salvar a Tartaruga Gigante Marinha, uma espécie de 2 metros de comprimento. Mas a luta deste ecologista da Costa Rica chegou ao fim ainda em maio de 2013. Mora havia se tornado um estorvo para os criminosos que traficam os ovos desse animal. Foi necessário apenas um tiro para que eles pudessem manter o negócio ativo. Jairo Mora foi assassinado na praia caribenha de Moín. No litoral pelo qual deu sua vida. Não é um caso isolado. Num período duma década um total de 908 pessoas morreram por sua luta em defesa do meio ambiente (760 delas em países da América Latina), são números dum relatório da organização não governamental Global Witness. As nações mais perigosas para os ativistas a favor da natureza vem sendo o Brasil bem como  também  Honduras, o Peru e a Colômbia. Mora se tornou um herói popular na Costa Rica e é um nome a mais na longa lista de ecologistas que vão à luta diariamente no anonimato, a mídia em geral não pauta ecologia nas suas notícias diárias. As pessoas em geral só ficam sabendo de um trabalho de ambientalistas, só quando eles sofrem grandes ameaças. 


A comunidade Ashaninka do Peru homenageou Edwin Chota




É o caso de Edwin Chota, o líder peruano da etnia Ashaninka, assassinado em 1o de setembro por madeireiros ilegais. Chota tinha 53 anos e havia passado a última década lutando contra as máfias que derrubavam árvores. Também defendia a demarcação das terras das comunidades amazônicas. É por uma causa semelhante a esta que que ainda hoje luta diariamente também a peruana Ruth Buendía Mestoquiari, de 37 anos. O grupo terrorista Sendero Luminoso terminou com a vida de seu pai quando ela tinha 13 anos. Foi retirada de casa à força junto com a mãe e os irmãos. Hoje ela é a presidenta da Central Ashaninka do Rio Ene, organização que defende os direitos dos indígenas e do ambiente onde vivem. "Perdoei os assassinos de meu pai. Ele protegia seu povo e seu habitat. Mas estou firme aqui para seguir seus passos", conta Buendía, por telefone, em um castelhano fluente com traços bem claros de Ashaninka, sua língua materna. 
Buendia teve seu pai assassinado mas segue na luta do povo Ashaninka




O medo não detém Buendia. Mas ela confessa que por vezes teme sofrer a mesma sorte que seu compatriota Chota ou que seu pai quando ela era garota. "Sempre tenho medo da violência. Mas estou comprometida. Não deveria haver pistoleiros com todo esse poder de matar. Nós estamos desamparados", argumenta Ruth Buendía Mestoquiari  Ela conta ainda que há alguns anos, a organização que ela preside conseguiu paralisar o grande projeto hidroelétrico de Pakitzapango, na bacia do rio Ene, onde mora boa parte dos Ashaninkas. Ela é mãe de cinco filhos hoje mas isso não a impede de lutar pelo que quer: que respeitem sua comunidade e que nenhuma empresa privada destrua ecossistemas do ambiente sem que exista nem mesmo uma consulta prévia à população ou um consenso. “Não somos contra o investimento privado, mas não queremos que explorem nossas terras como se fossem o fim do mundo”, afirma Buendía, ganhadora do prêmio Bartolomé de las Casas de 2014, concedido pelo Ministério de Relações Exteriores da Espanha.
 
Guadalupe del Río tem sido ameaçada no México



 
Por sua vez, a mexicana Guadalupe del Río, de 60 anos, sabe que proteger o meio ambiente é uma luta que faz parte do trabalho com as comunidades que habitam áreas de natureza rica. "Em um país como o México, onde quase todos os territórios têm dono, é preciso cooperar com a população porque é ela que vai cuidar assim mais diretamente dos recursos naturais”, explica essa bióloga, fundadora da organização Alternare, ainda em 1998. Ela conta que, junto com uma colega, trabalhava pela preservação de algumas espécies em vias de extinção, como o coelho Teporingo, nativo do México. As suas atenções se concentraram no que hoje se conhece como a Reserva da Biosfera Mariposa Monarca, localizada no Estado de Michoacán, no centro do país.






José Yáñez próximo à Caleta Tortel na região de Aysén, Chile. 
José Yáñez, luta pelo Codeff, na região de Aysén, Chile
 
Os pequenos agricultores desta região derrubavam árvores para ganhar a vida. No entanto, o faziam sem nenhuma estratégia para conservar o ecossistema regional, diz Del Río. Com cada machadada morria um pedaço da biodiversidade Reserva da Biosfera Mariposa Monarca.  Esta borboleta  Monarca, por exemplo, no verão migra desde o Canadá para vir a encontrar no México um clima quente, mas sem a sombra na região em que as árvores proporcionavam na sua sobrevivência no Canadá.. "Os camponeses são os primeiros a quererem cuidar de seu entorno, mas se não lhes é dada uma alternativa, não se pode pedir a eles que não toquem em nada. Foi assim que nasceu a Alternare”, afirma Del Río. Segundo a bióloga, a metodologia se transmite de camponês para camponês. Uns ensinam a outros e todos plantam árvores e alimentos, produzem adubo orgânico, mel, xaropes, pomadas e cestas feitas das cascas dos pinheiros. Temos que apoiar os povos nativos, nas suas formas mais tradicionais de viver. 






Miller Dussan Calderón, membro do Movimento Rios Vivos, Colômbia.
Miller Dussan Calderón, do Movimento Rios Vivos, Colômbia.

Miller Dussan Calderón, colombiano de 64 anos, diz dedicar 14 horas diárias ao Movimento Rios Vivos, que defende os territórios atingidos por represas – uma ocupação que ele alterna com suas aulas na Universidade Surcolombiana. Ele faz o mesmo que José Yañez, zoólogo chileno de 63 anos, que depois de cumprir com suas jornadas em um museu de história natural se dedica a presidir o Comitê Pró-Defesa da Fauna e da Flora (Codeff), que objetiva incentivar a preservação da natureza e o desenvolvimento sustentável. Os dias desses e de outros ecologistas são longos e começam ainda de madrugada. Dussan, assim como a líder peruana Buendía, dedica sua vida para que as comunidades nativas sejam consultadas antes do início das obras de algum projeto hidrelétrico ou de mineração que possa ter impacto em suas terras. "As multinacionais exploram e terminam com a biodiversidade do país, e se aproveitam da mão de obra barata. Contaminam nossos rios, matam os peixes, deixam milhares de famílias sem trabalho e colocam em risco a saúde das pessoas. No fim, só resta a elas a emigração forçada. A verdade é que agora existem soluções energéticas alternativas, mas eles só buscam o lucro mais rápido", explica Dussan, que fez doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha. Há três anos, surgiu o movimento, que já conseguiu articular todas as organizações que lutam pelo mesmo objetivo. Atuam informando a população, organizando manifestações, fazendo investigações e denunciando irregularidades. Dussan confirma que foi ameaçado em várias oportunidades. Cita, para exemplificar, Os Águias Negras, um suposto grupo paramilitar que enviaram a ele um documento, dando um prazo para ele ir embora o mais rápido de Huila (no sudoeste da Colômbia). 





Cacique Raoni alerta índios Kayapós sobre madeireiros e garimpeiros na Amazônia



A maioria dos assassinatos de ambientalistas ocorre na região amazônica, principalmente no caso do Brasil, afirma Chris Moye, representante da Global Witness. Ele cita o Cacique Raoni, ameaçado e perseguido por orientar povos indígenas a não permitirem nem garimpo nem derrubada de árvores nas matas nativas. “Nessa região, a impunidade prevalece e a lei das armas é mais forte do que o estado de direito”, explica ele, falando desde a sede da entidade, em Londres. “Queremos ser a voz daqueles que não têm voz”, responde por sua vez o chileno Yañez, citando o lema da organização que preside, a Codeff, e na qual entrou como voluntário há 29 anos. A instituição, criada em 1986, luta pela preservação e recuperação da lagoa El Plateado, perto de Santiago, além de proteger animais em risco de extinção, como o Huemul (espécie de cervo dos Andes), e de promover o ecoturismo ou ainda realizar projetos de pesquisa e de educação ambiental. São muitos os obstáculos enfrentados por essas organizações ecológicas no caminho para a preservação. Para Yañez, o problema mais difícil é consequência da cultura atual do consumo e da violência: "O maior freio é a preguiça das pessoas. A indiferença. ‘Não movo um dedo se não me pagarem’. E isso está relacionado ao sistema econômico atual”. Guadalupe del Río concorda: “Se a espécie humana quer se manter no planeta, todos nós  do campo e das cidades temos que aprender a aproveitar os recursos naturais de maneira inteligente”. É mais ou menos o que diz também Miller Dussan, que vem  incentivando os colombianos a salvar seus rios. A luta diária dos ecologistas em geral ocupa um vazio que os Governos deixaram para segundo plano. Uma batalha pouco reconhecida, sem uma remuneração atraente e, muitas vezes, carregada de ameaças e de perigo de morte. Neste levantamento de 15 anos de lutas ambientalistas na América Latina foi ainda citado entre outras vítimas brasileiras, a mais conhecida, Chico Mendes, ícone da guerra pela natureza que continua hoje com outros heróis anônimos, no dia a dia da Amazônia no Brasil. 
 


Muitos ecologistas têm sido ameaçados ou mortos no Brasil nestes 15 anos...

...ainda hoje Chico Mendes é um ícone da luta pela natureza na América do Sul


Fontes: www.brasil.elpais.com
             www.folhaverdenews.com

10 comentários:

  1. Em breve estaremos atualizando informações sobre as lutas do movimento ecológico, cientíico e de cidadania, no Brasil, na América Latina. Aguarde nossa edição e confira aqui.

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  4. "Relembrando estas figuras e estas lutas citadas nesse levantamento, a gente precisa dizer que a história da ecologia em nosso continente tem sido escrita com muita luta e muitas vítimas": comentário de José Elizeu Garcia, engenheiro agrônomo, que atua na região do Cerrado, "por aqui, as questões de terra têm feito vítimas direto".

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  5. "Importante este vídeo com grandes cantores e cantoras divulgando a causa da Demarcação Já, porque a tendência governamental parece ser a de não fazer valer em muitos casos estes direito": comentário de Pedro Paulo Santos, que nos envia um material do Greenpeace sobre esta pauta, confir a a seguir.

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  6. Os índios precisam ser encarados também como ecologistas ou pelo menos protetores de nossa natureza": comentário de Ana Maria Brandão, socióloga da UFMG.

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  7. "Diversas organizações e movimentos sociais já divulgaram, nacionalmente, nota repudiando decreto do governo que pretende modificar os procedimentos para a demarcação de terras indígenas no Brasil. Por meio da imprensa, uma minuta do decreto veio a público na virada de 2016 para 2017 e provocou a reação do movimento indígena, de organizações indigenistas, entidades apoiadoras da causa e defensores dos direitos humanos": comentário que é o texto de abertura de matéria especial feita no site do Greenpeace sobre este tema. Confira mais a seguir.

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  8. "A minuta governamentasl foi elaborada sem qualquer diálogo com o Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) nem consulta prévia aos povos indígenas, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de contrariar a legislação vigente e impossibilitar a resolução dos conflitos atuais envolvendo a demarcação de territórios indígenas. A versão da minuta que se tornou pública trazia como data o ano de 2016, o que pode indicar que o governo pretendia publicá-la com um “canetada” ao longo de 2017 para dificultar a mobilização dos povos indígenas contra a medida.
    Em consonância com nota já divulgada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) as entidades listam dez itens do decreto que consideram graves violações aos direitos constitucionais dos povos indígenas no Brasil, apontando que ele contraria as recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU) ao Brasil e “atende aos interesses de setores que pressionam pela aniquilação da existência dos povos indígenas enquanto povos autônomos e culturalmente diferenciados”.

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  9. Confira mais dados levantados no documento divulgado pelo Greenpeace; "O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), uma das entidades que assina a nota de repúdio, avalia que o decreto, se publicado, afetaria a demarcação de aproximadamente 600 terras indígenas em diferentes estágios do procedimento demarcatório. Entre os vários dispositivos graves previstos pelo decreto está a incorporação do “marco temporal”, uma interpretação restritiva do artigo 231 da Constituição Federal que, na avaliação das entidades e movimentos, serviria somente para “legitimar situações de esbulhos de terras indígenas, posses ilegítimas, irregulares e ilegais e, consequentemente, outras violações de direitos humanos dos povos indígenas”.

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  10. "Os índios foram e continuam sendo uma das principais vítimas da violência no Brasil contra a ecologia": comentário de Roberta Araújo, que fez História na Unesp e tua na região de Bauru (SP). Ela nos envia um noticiário que capotou ainda hoje sobre essa questão na Agência Brasil: "Índios Guarani ocuparam hoje (13) a sede administrativa do Parque do Jaraguá (13), zona norte da capital paulista. O grupo formado por moradores das quatro aldeias da região protesta contra a decisão do Ministério da Justiça que anulou a demarcação da Terra Indígena do Jaraguá. O território também faz parte de uma disputa jurídica com o governo do estado de São Paulo por se sobrepor, em parte, à unidade de conservação. Foram fechadas as duas entradas principais do parque, onde os índios permanecem com faixas e cantando músicas tradicionais. Uma parte dos ocupantes subiu para o Pico do Jaraguá para fazer um ritual que deve se estender durante a noite. “Várias organizações internacionais já comprovaram que as terras indígenas são as terras mais bem protegidas. Nós já enfrentamos muita luta com essa área de Mata Atlântica do Jaraguá, protegendo contra a especulação imobiliária, contra transportadoras. E esse governo caminha na contramão da proteção ambiental”, disse um dos líderes do movimento, David Karai Popygua".

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